( Em julho de 2005 li na Folha de São Paulo, uma reportagem sobre o IgNóbel, uma espécie de prêmio de mensão de desonrosa dada as pesquisas mais inúteis realizadas no campo acadêmico. Funciona como o prêmio Framboesa, Leonardo di Caprio ganhou o prêmio Framboesa de pior ator em Titanic. O IgNóbel está para o Nóbel, assim como o Framboesa está para o Oscar. Enfim, Vi a reportagem e me interessei pela história de cada um daqueles duentes mentais que se intitularam cientistas e gastaram seu tempo e recursos financeiros em projetos que não provam absolutamente nada. Na época fiz dois contos com base em duas categorias. não consegui cumprir a missão de redicularizar cada uma das 10 categorias. e para aqueles que não acreditam em mim a qui vai um link: http://jscms.jrn.columbia.edu/cns/2005-04-19/blask-alarmclocky)
A Máquina
Toda manhã era a mesma coisa , acordava tarde por ter desligado o despertador para dormir mais. Era a terceira vez na semana que chegaria atrasado mais de três horas no trabalho e seu chefe já estava ameaçando demiti-lo se aquilo se repetisse.
Atrasado por atrasado, resolveu tomar um banho e um bom café. Afinal merecia. Não tinha dormido direito a noite por causa dos seus temores noturnos.
A água gelada sempre o ajudava a acordar melhor. O sol abundante entrava pelo vitrô do banheiro. A chuveirada molhava seu coro cabeludo e a preguiça escorria com a água como se fosse sujeira. Começava a acordar. No entanto, sabia que nem o banho nem qualquer outra coisa lhe serviria, seu dia seria uma merda.
Café preto e bem forte sem açúcar; para acordar de vez, e uma torrada com geléia para quebrar o amargo. Nó na gravata. Duas passadas de chave na porta.
O ônibus lotado e o calor insuportável o aborreciam. Sua camisa de linho branco, límpida e engomada, começava a ficar suada. Odiava ficar com rodelas de suor nas axilas, logo abaixo do braço, no vulgo pizzas, certamente seriam comentadas de forma jocosa no trabalho.
Seu chefe como de costume, e com razão, já começava a latir. Começara o sermão da montanha. “tem muita gente aí fora que queria seu emprego”. Bla, bla, bla, bla, bla, bla! Depois de um discurso de 30 minutos sentou em sua mesa. Corrigindo, seu misero e ínfimo cubículo, tão apertado e tão lotado de papeis que o porta-retrato nem ficava em pé. Quarenta e cinco minutos de trabalho e logo seria o horário de almoço. Qualquer relatório ou processo que fosse iniciado agora demoraria pelo menos uma hora e meia, e interromper o raciocínio na elaboração de algo tão importante seria prejudicial. Sentia-se um inútil. Não era preguiçoso, fora esforçado e competente, mas aqueles temores noturnos e as horas a mais de sono estavam acabando com sua vida. Tudo estava desmoronando, sua carreira, sua saúde, seu ânimo. Aquilo deveria ser resolvido. Mas como?
Resolveu ler o jornal. Pelo menos se manteria informado e poderia manter uma boa conversa durante o almoço sobre os assuntos mais recentes e importantes da política econômica brasileira.
De repente algo lhe chamou a atenção. Na página 2 do caderno de ciências, viu uma reportagem sobre um prêmio dado a cientistas por suas pesquisas e invenções de inutilidade pública. A ganhadora da categoria de economia, uma respeitável acadêmica americana, tinha inventado um despertador revolucionário. Ao soar o gongo, esse fugia de seu dono, para que o mesmo não conseguisse desligá-lo. Era exatamente o que precisava. A solução para todos os seus problemas. Recortou o artigo e o guardou cuidadosamente em sua pasta.
Durante o almoço fez um interurbano para Boston, Massachusetts, para falar com a tal doutora. Tudo acertado, dentro de três dias a doutora americana mandaria seu modelo experimental de despertador por um serviço de corrier. Dentro de três dias tudo seria resolvido.
Três da manhã, acordava mais uma vez por causa dos seus temores. As doenças do sono acabam com a vida de qualquer cidadão. No entanto, dali a quatro horas iria se levantar, quer quisesse ou não, ou então reclamaria formalmente para a tal doutora.
Triiiiiiimmmmmmmm. 7 horas, um barulho infernal chega a seus ouvidos, o maldito despertador começa a tocar como se para avisar que o prédio estivesse em chamas. Acorda de sopetão e bate a cabeça na estante de livros a cima da cama. Num momento de raiva profunda se atira para cima do despertador, e no ímpeto, chuta o criado-mudo sentindo uma dor miserável no dedinho do pé. O despertador, ao pressentir o perigo de ser desligado, pula do criado-mudo, passa por debaixo das pernas de seu dono e saí correndo pela casa, batendo nas quinas e tocando cada vez mais alto.
Começa a perseguição. Desligá-lo parece uma tarefa impossível. O dono, munido de uma frigideira para esmaga-lo sem piedade, segue o insuportável som em seus ouvidos para tentar apanhar a invenção mais cretina já inventada pela humanidade.em seu volume máximo, o som do despertador agora se mescla com o interfone de vizinhos reclamando e da campainha tocada veementemente pelo zelador.
Abre-se a porta, a inevitável discussão, seguida de explicações e de desculpas começa. Enquanto isso, o despertador fabricado pela besta americana em forma de mulher, que tinha como objetivo trazer o apocalipse para o cotidiano alheio, desce as escadas de emergência, acordando o resto dos insistentes e dorminhocos condôminos. Prontamente, o zelador, com sua espingarda carregada, institui uma comissão de moradores revoltados para realizar a caça à abominável máquina criada para gritar mais que uma mulher em trabalho de parto. Descem as escadas perseguindo esta que agora, com parafusos a menos, toca ainda mais alto, se é que fosse possível. Depois de 10 longos minutos de perseguição o despertador é espatifado em inúmeros pedaços e finalmente para de tocar, para a graça de todos os viventes.
Nosso protagonista, decide por fim e definitivamente que a melhor das soluções são consultas periódicas a um terapeuta especializado, no Instituto do Sono, na tua Botucatu, localizada nessa imensa e estressante metrópole.
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Perfeito!
ResponderExcluirAdoro o humor sarcástico, as inquietações, as indagações.
Acredito que se não fosse por esse seu desespero de buscar algo, não seria tão bom quanto és...
Continue assim, inquieto, aflito, e até mesmo, melancólico.
Pois é assim mesmo que vc se torna adorável...
Havia me esquecido...
ResponderExcluirtorcerei muito para um dia tornar a ver um Augusto dos Anjos despontando na literatura brasileira.