(Durante o terceiro semestre da faculdade, em 2004, foi solicitado para um trabalho de LP, que parafraseássemos a cegueira branca de Saramago. Fiz o poema a seguir para acompanhar uma performance sinestésica do grupo em sala de aula. divirtam-se e se puderem leiam o mestre Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira")
Sibéria
Solidão e frio é do que tenho consciência
Assim é a vida na sibéria
Uma completa e permanente miséria
Em que se resume toda a existência
O Frio nos mata devagar
Primeiro o tato e já nada posso tocar
Com a certeza que de fato
Tão cedo irei congelar
As mãos que tocam sem sentir
E a palma do outro a retribuir
E o carinho de ambos já vazio
Hei de morrer de frio
Hei de morrer de frio
O ar gelado adormece a lingual
Lá se vai o Paladar
E a cada dia o sabor mingua
Já não conseguirei falar
Foisse o beijo macio
Hei de morrer de frio
Perante o mundo um ar de arrogância
Da gélida corrente da indiferença
Tudo apresenta a insossa fragrância
O aroma do nada que me faz presença
E me tapam as narinas com veemência
Os discursos do homem já não me afetam
Jamais poderiam, não me dizem respeito
Escolhi não ouvir quando se manifestam
Discursos, formas vazias de causa e efeito
Trazem consigo um conceito tardio
Com certeza hei de morrer de frio
No meio da neve a caminhar
Tantos em volta e eu sem notar
A neve que cai embaça a visão
A alva brancura do irônico estio
E dentro de mim a escuridão
Hei de morrer de frio
Hei de morrer ou já morri
Eis a dura chaga da solidão
Não poder dizer ao certo
Quanto tempo eu vivi
Espero do outro a compaixão
Mas não posso vê-lo se está perto
Pois foi assim que escolhi
Sinto Frio como nunca senti antes
Já não posso dizer se estou vivo ou morto
A vida já não me traz nenhum conforto
Augusto M. dos Anjos
2004
quarta-feira, 9 de agosto de 2006
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