terça-feira, 29 de agosto de 2006

Serie IgNobel - A Maquina

( Em julho de 2005 li na Folha de São Paulo, uma reportagem sobre o IgNóbel, uma espécie de prêmio de mensão de desonrosa dada as pesquisas mais inúteis realizadas no campo acadêmico. Funciona como o prêmio Framboesa, Leonardo di Caprio ganhou o prêmio Framboesa de pior ator em Titanic. O IgNóbel está para o Nóbel, assim como o Framboesa está para o Oscar. Enfim, Vi a reportagem e me interessei pela história de cada um daqueles duentes mentais que se intitularam cientistas e gastaram seu tempo e recursos financeiros em projetos que não provam absolutamente nada. Na época fiz dois contos com base em duas categorias. não consegui cumprir a missão de redicularizar cada uma das 10 categorias. e para aqueles que não acreditam em mim a qui vai um link: http://jscms.jrn.columbia.edu/cns/2005-04-19/blask-alarmclocky)



A Máquina

Toda manhã era a mesma coisa , acordava tarde por ter desligado o despertador para dormir mais. Era a terceira vez na semana que chegaria atrasado mais de três horas no trabalho e seu chefe já estava ameaçando demiti-lo se aquilo se repetisse.
Atrasado por atrasado, resolveu tomar um banho e um bom café. Afinal merecia. Não tinha dormido direito a noite por causa dos seus temores noturnos.
A água gelada sempre o ajudava a acordar melhor. O sol abundante entrava pelo vitrô do banheiro. A chuveirada molhava seu coro cabeludo e a preguiça escorria com a água como se fosse sujeira. Começava a acordar. No entanto, sabia que nem o banho nem qualquer outra coisa lhe serviria, seu dia seria uma merda.
Café preto e bem forte sem açúcar; para acordar de vez, e uma torrada com geléia para quebrar o amargo. Nó na gravata. Duas passadas de chave na porta.
O ônibus lotado e o calor insuportável o aborreciam. Sua camisa de linho branco, límpida e engomada, começava a ficar suada. Odiava ficar com rodelas de suor nas axilas, logo abaixo do braço, no vulgo pizzas, certamente seriam comentadas de forma jocosa no trabalho.
Seu chefe como de costume, e com razão, já começava a latir. Começara o sermão da montanha. “tem muita gente aí fora que queria seu emprego”. Bla, bla, bla, bla, bla, bla! Depois de um discurso de 30 minutos sentou em sua mesa. Corrigindo, seu misero e ínfimo cubículo, tão apertado e tão lotado de papeis que o porta-retrato nem ficava em pé. Quarenta e cinco minutos de trabalho e logo seria o horário de almoço. Qualquer relatório ou processo que fosse iniciado agora demoraria pelo menos uma hora e meia, e interromper o raciocínio na elaboração de algo tão importante seria prejudicial. Sentia-se um inútil. Não era preguiçoso, fora esforçado e competente, mas aqueles temores noturnos e as horas a mais de sono estavam acabando com sua vida. Tudo estava desmoronando, sua carreira, sua saúde, seu ânimo. Aquilo deveria ser resolvido. Mas como?
Resolveu ler o jornal. Pelo menos se manteria informado e poderia manter uma boa conversa durante o almoço sobre os assuntos mais recentes e importantes da política econômica brasileira.
De repente algo lhe chamou a atenção. Na página 2 do caderno de ciências, viu uma reportagem sobre um prêmio dado a cientistas por suas pesquisas e invenções de inutilidade pública. A ganhadora da categoria de economia, uma respeitável acadêmica americana, tinha inventado um despertador revolucionário. Ao soar o gongo, esse fugia de seu dono, para que o mesmo não conseguisse desligá-lo. Era exatamente o que precisava. A solução para todos os seus problemas. Recortou o artigo e o guardou cuidadosamente em sua pasta.
Durante o almoço fez um interurbano para Boston, Massachusetts, para falar com a tal doutora. Tudo acertado, dentro de três dias a doutora americana mandaria seu modelo experimental de despertador por um serviço de corrier. Dentro de três dias tudo seria resolvido.
Três da manhã, acordava mais uma vez por causa dos seus temores. As doenças do sono acabam com a vida de qualquer cidadão. No entanto, dali a quatro horas iria se levantar, quer quisesse ou não, ou então reclamaria formalmente para a tal doutora.
Triiiiiiimmmmmmmm. 7 horas, um barulho infernal chega a seus ouvidos, o maldito despertador começa a tocar como se para avisar que o prédio estivesse em chamas. Acorda de sopetão e bate a cabeça na estante de livros a cima da cama. Num momento de raiva profunda se atira para cima do despertador, e no ímpeto, chuta o criado-mudo sentindo uma dor miserável no dedinho do pé. O despertador, ao pressentir o perigo de ser desligado, pula do criado-mudo, passa por debaixo das pernas de seu dono e saí correndo pela casa, batendo nas quinas e tocando cada vez mais alto.
Começa a perseguição. Desligá-lo parece uma tarefa impossível. O dono, munido de uma frigideira para esmaga-lo sem piedade, segue o insuportável som em seus ouvidos para tentar apanhar a invenção mais cretina já inventada pela humanidade.em seu volume máximo, o som do despertador agora se mescla com o interfone de vizinhos reclamando e da campainha tocada veementemente pelo zelador.
Abre-se a porta, a inevitável discussão, seguida de explicações e de desculpas começa. Enquanto isso, o despertador fabricado pela besta americana em forma de mulher, que tinha como objetivo trazer o apocalipse para o cotidiano alheio, desce as escadas de emergência, acordando o resto dos insistentes e dorminhocos condôminos. Prontamente, o zelador, com sua espingarda carregada, institui uma comissão de moradores revoltados para realizar a caça à abominável máquina criada para gritar mais que uma mulher em trabalho de parto. Descem as escadas perseguindo esta que agora, com parafusos a menos, toca ainda mais alto, se é que fosse possível. Depois de 10 longos minutos de perseguição o despertador é espatifado em inúmeros pedaços e finalmente para de tocar, para a graça de todos os viventes.
Nosso protagonista, decide por fim e definitivamente que a melhor das soluções são consultas periódicas a um terapeuta especializado, no Instituto do Sono, na tua Botucatu, localizada nessa imensa e estressante metrópole.

Briefing Knorr

(Fiz esse texto numa aula de redação. A tarefa era fazer um texto criativo comparando duas frases, uma do famoso Jack Trout, "definir é morrer", e a outra não lembro mas dizia algo sobre os entraves criativos quando se têm muitos poréns. O texto deveria ter precisamente 20 linhas, óbvio que em letra corrida alcancei a meta. O fato é que fui criticado por meus amigos de planejamento, pois eu faço minha especialização em planejamento apesar do fato de ter um pézinho na criação. O que expressei aqui com metáforas sobre a criação e a sopa primordial é minha sincera opinião. Eu bem sei o quanto o trabalho de um planejador é importante, mas ele deve fazer um briefing que dê espaço para o criativo. Deve ser um briefing Sopão Knorr, você dá o caldo de feijão e deixe o cozinheiro colocar a carne, a batatinha, a cenoura e o macarrão.)

Briefing Knorr

Tivera Deus um briefing ao criar o mundo? Um documento exacerbadamente detalhado dizendo no 1º dia crie a luz. No 2º a terra, no 3º os mares, no 4º, precisamente no 4º dia, crie a vida e com a vida no 5º dia crie os animais, para no sexto, e só no sexto, criar o cara que vai definir tudo, classificar tudo, organizar tudo. Finalmente no 7º, descanse com a frustração e o fiasco da última criação.
Não! Certamente o mundo não foi criado a partir de um briefing. O processo criativo se abstém de regras, é subversivo, é anarquista, é descontrolado, é outsider, é o resultado de múltiplas vivências e influências do mundo, e a destruição de todas elas para criar uma coisa extremamente nova e original. Assim um briefing deve se limitar apenas a ater a criação a vontade de seu mecena, o produto, o cliente; pois o criador não é um artista. Mas deus sim, o era. E por isso fez sopa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Socorro! Eu prefiro o PCC

Existe uma facção ainda mais poderosa e maquiavélica do que o PCC, capaz de instalar o caos na cidade de São Paulo em segundos e perpetuá-lo por todo um dia. Eles são os metroviários.
A cena que vi quando sai de casa hoje foi indescritível. Por mais que estivesse preparado e informado a respeito da greve, o que presenciei me surpreendeu. Me sentia dentro do filme “Impacto Profundo”, os carros atolavam as ruas sem deixar um milésimo de centímetro livre; os ônibus tinham passageiros saindo pela janela e as portas já não fechavam. Havia quem andasse pelas ruas e fosse mais rápido que os automóveis. Olhava aquilo e pensava quando viria a onda gigante, causada pelo meteoro, para matar a todos afogados.
Resolvi aderir e caminhei. Caminhei da minha casa, próximo a igreja de São Judas, até o primeiro ponto da avenida Paulista, em frente ao Bradesco.
Em minha caminhada pude apreciar a cidade como há muito não fazia. Se estressar com o inevitável? Por quê? Andava com “Bitter Sweet Symphony” na cabeça. Andava pensando “Nothing is gonna change my mood”. Andava apreciando o sol que aquecia a manhã e o fulgor das poucas árvores e flores; e, obviamente, andava apreciando o caos. Sim o caos; é curioso andar e reparar como as pessoas reagem sob o inevitável. Há aqueles que como eu, andavam rumo ao trabalho, conversando alegres, mas preocupados com a hora que chegariam. Mas há também aqueles, que sentam desolados no ponto, com cara de bunda, à espera de um ônibus em que consigam embarcar. Desses tenho pena. Há também aqueles que se aproveitam da situação para entregar muitos folhetos e vender água e guloseimas nos faróis. Depois de dez minutos de caminhada, resolvi lembrar da minha época de legionário e cantei “Faroeste Caboclo” inteiro.
É engraçado parar para pensar a respeito. É preciso a cidade inteira parar, para que se comece novamente a percebê-la. Percebê-la como se deve.
Afinal esse é o papel do caos, destruir para reconstruir, para aperfeiçoar, ainda que para os poucos que percebam a modificação. Não, não sou um anarquista. Mas é fato que o caos tem em si o gérmen da vida. Mas isso é estória para outro dia.


Augusto M dos Anjos
15/08/06

Síndrome do Tédio

Estou no carro dirigindo ao léu, é domingo. Como em todo o domingo o tédio é inevitável. Mas ultimamente o tédio tem ganhado uma perspectiva diferente para mim, vem com uma dose extra de melancolia e costuma se estender pelo resto da semana. Mas definitivamente, domingo é sempre a gota d’água, sempre um saco.
Ficar parado sem fazer nada faz a gente pensar. Pensar sobre o porque está parado. Pensar sobre a vida e sobre o que a deixou assim. Claro que de ante mão já sei a resposta do porque estou parado. Estou sem dinheiro, e sem ele não se faz nada em São Paulo, por isso fiquei em casa os últimos três finais de semana, sem fazer nada. Também estou sem amigos. Calma, não é sessão terapia. Tenho amigos, muitos, só que no momento cada amigo tem sua própria turma ou sua própria companhia. Sabe quando mamãe, de saco cheio, te dizia “vá procurar sua turma” porque você era muito pequeno para ouvir, em bom português, vai se foder. Pois tenho procurado minha turma. Mas no momento estou em casa, parado, fazendo nada.
É estranho. Outro dia fui visitar um grande amigo numa situação bem pior que a minha: surto de síndrome do pânico. Às vezes dou graças a deus ironicamente, por estar tão infeliz por tanto tempo e , ainda assim, nada parecido me aconteceu; soube sempre lidar com meus problemas sozinho. Na maioria das vezes era assim que tinha de resolvê-los.
Ao ouvir a descrição dos sintomas da boca de meu amigo, “como se fosse uma ataque de 5 minutos, bate um desespero profundo onde quero voltar pra casa”, percebei que tantos outros que conhecia já tinham apresentado histórico semelhante. As doenças da modernidade me assuntam.
Mas recapitulando, é domingo. Eu, na inutilidade do meu tédio, começo a pensar um monte de merda. São 18 horas e não sai de casa. O tédio atinge um nível crítico desesperador. Preciso sair. Pegar o carro e andar na cidade. Peguei os filmes a serem devolvidos à locadora e fui. É a segunda vez que isso acontece. No começo do ano, sozinho em casa, o tédio tinha atingido também uma dimensão catastrófica e tive que sair; também um domingo, em plena madrugada, simplesmente para andar de carro, espairecer. Passeios Noturnos.
No passeio de hoje, comecei a desenvolver uma teoria sobre o que sentia; em verdade, penso que desenvolvi a antítese da síndrome do pânico. A Síndrome do Tédio. Devastadora, aniquiladora, ela pode acabar com um fim de semana perfeito. Os sintomas são paradoxais aos de sua síndrome irmã. Vem, como que por decreto, um surto de desespero, um súbito descontentamento exacerbado, e a certeza absoluta do que deve ser feito: “Tenho que sair de casa!” “Agora!”
Você já sentiu um tédio tão avassalador que te fez largar tudo que fazia, ou não fazia e partir? Você já saiu de casa, sem destino certo, apenas para pensar o que tem feito de errado e colocar a vida em perspectiva?
É Domingo. Parta. Pense. Mexa-se.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Pieguice.com

(PS: particularmente não gosto desse texto. Escrevi em 2004 e apesar de permanecer atual, recebi uma maldição online hoje, ele me recorda de um Augusto radical. Típico idealismo utópico de final de adolescência. E obiviamente uma era A.G, antes do Gmail. Não tenho mais tanta raiva de correntes assim, mesmo pq o internauta evoluiu. Aquela época era email e internet. Hoje temos MSN, Skype, Gmail, etc. Divirtam-se e recordem.)

Alguma vez na vida vocês já receberam alguma corrente por e-mail? Ou quem sabe uma mensagem cheia de florzinhas e ursinhos se beijando que dá até nojo, informando que se você realmente tiver algum amigo, esse glorioso e-mail vai te ajudar a reconhecê-los? Como?!! É fácil, é só mandar para todos aqueles que você considera seus verdadeiros amigos, ou seja, todos os idiotas na sua lista, e torcer para que eles te mandem de volta.
Ahhh, mas não vai esquecer de mandar esse e-mail de volta pro suicida carente por atenção que te enviou essa mensagem.
Não? Nunca receberam não? Então tá, vamos ver se outro exemplo soa familiar.
“MUITO IMPORTANTE, não quebre essa corrente, Robert Smith quebrou essa corrente e foi atropelado por uma manada de elefantes no meio de Manhatan, Jane Jings quebrou essa corrente e foi devorada por piranhas assassinas africanas enquanto tomava banho em sua jacuzzi, numa casa de campo no estado da Pensilvânia, Billy Wendy queboru essa corrente e apenas uma hora depois perdeu o emprego, se divorciou de sua mulher e descobriu que tinha câncer. Mande AGORA MESMO essa mensagem para 50 pessoas ou coisas terríveis podem acontecer. ATENÇÃO esse e-mail deve sair de sua caixa de entrada dentro das próximas três horas ou não me responsabilizo pelas conseqüências.”
Não? Também não soou familiar?? Ahã, que tal essa então?
“Não quebre essa corrente. Esse Tantra Sagrado já deu mais de 200 voltas no mundo espalhando a paz e a felicidade e foi elaborado pelo próprio Buda. Por favor, não delete essa mensagem antes de ler.” E quando você abre o ppt, fotinhos bonitinhas de cachorrinhos, bebês e casais de terceira idade saltam em sua tela com as seguintes frases: “saia na chuva”, “dê um banho em seu cachorro”, “sorria mais vezes”, “beba mais água” , “não deixe o rancor te corromper”, “perdoe e peça perdão”, “plante uma árvore”, “compre o livro do Da Lai Lama”. E no último slide você se depara com: “Envie isso para 30 pessoas e você será miseravelmente feliz, envie isso para 80 pessoas e você será razoavelmente feliz, envie para 200 pessoas e amanhã acontecerá uma grande surpresa em sua vida, envie para 500 pessoas e você será muito feliz, envie isso para 1255 pessoas e você atingirá o nirvana na terra. Pode acreditar que dá certo.” Ah e não esqueça de fazer um pedido para que o Tantra Sagrado realize trazendo paz e prosperidade para sua casa. Hahaha.
É claro que vocês já receberam um e-mail assim, todo mundo só recebe e-mails assim. Afinal é só esse tipo de lixo que circula na internet. Acho que chegou a hora de revermos nossos conceitos e começar a usar a internet para enviar coisas melhores, coisas com mais conteúdo, coisas que realmente acrescentem algo útil em nossas vidas, e não essa pieguice que circula por e-mail te falando tudo aquilo que você já sabia, ou, se não sabia aprenderia facilmente alugando um filminho adocicado no domingo à tarde, aqueles em que a mocinha acaba com o mocinho, eles aprendem uma grande lição e todos vivem felizes para sempre.
Claro que uma saída fácil seria simplesmente parar de mandar e-mails, ou simplesmente parar de abri-los. Não, já tentei. No entanto percebi que não adianta e que os tantras da vida e as maldições online e as declarações de amor do ursinho Pooh não bao desaparecer só porque quero, ou só porque acho que isso não tem proveito algum para um veículo de comunicação que poderia ser muito mais explorado a favor da cultura e da politização de uma população que carece totalmente das duas supracitadas ( e quando digo população não me refiro as classes de baixa renda, que obviamente não tem acesso a tais meios).
Em todo caso, não há nada que se possa fazer, a não ser aderir e tentar mudar isso de dentro para fora. E já que é para partir pra pieguice... se não pode vencê-los, junte-se a eles. Por isso proponho o movimento de cultura anti-social online, pelo menos para mensagens de pura originalidade, como os exemplos citados nesse educado manifesto. Diga não à pieguice.com, torne a internet um veículo um pouco mais interessante. Não quebre essa porra de corrente e mande essa mensagem para todos os seus amigos, depois mande um e-mail de volta para o amigo que te enviou essa mensagem, mandando ele à merda, como um sinal positivo de anti-socialismo online por ele ter te enviado mais outra maldita corrente.

Augusto M. Anjos
28/07/04

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Testamento de um Hedonista

Quantos dias a vida nos reserva?
Para uns dezenas de anos. Para outros semanas ou minutos. E pra mim? Não sei. Não sei quanto ao tempo. Só o tempo sabe do tempo. Sei o que quero. Sei o que mereço. Sei aquilo que há de se realizar; com o meu tempo.
Às vezes a vida passa por entre as mãos, como água, e quando vemos ela escapou. Quando vemos temos 80 naos porque já vivemos muito, e não vivemos nada. Não quero viver tanto se tiver que olhar para trás e não ver nada construido, nenhuma boa lembrança, nenhuma alegria. Não quero uma vida só de arrependimentos. Quero viver. Anseio pela vida. Anseio pelo hedonismo, pelo prazer, pela felicidade.
A maioria das pessoas more de descontentamento, de solidão, de desgosto, de angústia, de rancor, de ódio. Quero morrer num orgasmo ao olhar o por do sol numa colina esplendorosa. Quero morrer fazendo rafting no rio caudoloso e feroz da vida. Não sei quantos dias a vida me reserva. Mas sei o que reservo para a vida.


Augusto M.dos Anjos
11/09/05 11:59 pm

Una Lamúria Murmurosa en la Noche

(escrevi esse texto em memória de Fernanda Sasahara, por todas as lágrimas que não pude derramar em sua partida, naquele dia)



Soturno caminante noturno
Soturno a andar por las calles
Con su paraguas negro a caminar con la muerte
De la muerte es novio, bebe el vino amargo de su copa sin miedo
Tiene la certitumbre de su presencia al su lado, como al de toda la humanidad
Soturno caminante que no tiene amigos para no perdielos para su novia.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Siberia

(Durante o terceiro semestre da faculdade, em 2004, foi solicitado para um trabalho de LP, que parafraseássemos a cegueira branca de Saramago. Fiz o poema a seguir para acompanhar uma performance sinestésica do grupo em sala de aula. divirtam-se e se puderem leiam o mestre Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira")

Sibéria

Solidão e frio é do que tenho consciência
Assim é a vida na sibéria
Uma completa e permanente miséria
Em que se resume toda a existência

O Frio nos mata devagar
Primeiro o tato e já nada posso tocar
Com a certeza que de fato
Tão cedo irei congelar

As mãos que tocam sem sentir
E a palma do outro a retribuir
E o carinho de ambos já vazio
Hei de morrer de frio
Hei de morrer de frio

O ar gelado adormece a lingual
Lá se vai o Paladar
E a cada dia o sabor mingua
Já não conseguirei falar
Foisse o beijo macio
Hei de morrer de frio

Perante o mundo um ar de arrogância
Da gélida corrente da indiferença
Tudo apresenta a insossa fragrância
O aroma do nada que me faz presença
E me tapam as narinas com veemência

Os discursos do homem já não me afetam
Jamais poderiam, não me dizem respeito
Escolhi não ouvir quando se manifestam
Discursos, formas vazias de causa e efeito
Trazem consigo um conceito tardio
Com certeza hei de morrer de frio

No meio da neve a caminhar
Tantos em volta e eu sem notar
A neve que cai embaça a visão
A alva brancura do irônico estio
E dentro de mim a escuridão
Hei de morrer de frio

Hei de morrer ou já morri
Eis a dura chaga da solidão
Não poder dizer ao certo
Quanto tempo eu vivi
Espero do outro a compaixão
Mas não posso vê-lo se está perto
Pois foi assim que escolhi

Sinto Frio como nunca senti antes
Já não posso dizer se estou vivo ou morto
A vida já não me traz nenhum conforto



Augusto M. dos Anjos
2004

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Escrita Dinâmica ou Catártica?

Você já se sentiu deprimido sem nenhum motivo aparente? Já acordou sentindo que não há sentido em nada? Que não deveria ter levantado? Que o silêncio do tempo e das coisas não pode ser quebrado por mais alto que se grite?
É a praga e a sina da humanidade, o silêncio. O homem moderno faz de tudo para não ouvi-lo, não senti-lo. Mas ele está presente; na rotina, na preguiça, na inércia. Ele é a vida. Não a que inventamos para nós. Não. É a vida em natura. Rude e sem objetivo. Sem fim em si mesma. É e apenas é. Nada mais.
Você já viveu um dia em que o silêncio revelador fosse quase palpável? Já acordou tão silenciosamente que se vira incapaz de quebrar o silêncio?


Augusto M. dos Anjos
20/04/06 3:38 pm

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

sábado, 5 de agosto de 2006

Concurso de Poesia V

Esse é o quinto selecionado. Criei uma nomenclatura para meus poemas quando esses se correspondem, assim como teses e antíteses criei poemas e anti-poemas. A seguir vcs lerão o anti-poema de "Gênese do Poema", e poderão perceber que não era um momento muito feliz. Ele é quase niilista, todo constituído em versos brancos:



Aborto Literário


Talvez o papel devesse sempre ficar em branco…

Jamais germinado pela idéia da tinta…

Falsa e etérea é a tinta…

A realidade é o aborto da idéia…

O Branco…

O Nada…

O Silêncio.


Augusto M. dos Anjos
20/04/06 3:30 pm

Concurso de Poesia IV

Esse é outro poema selecionado para o concurso. Particularmente esse é meu favorito, considero-o minha obra-prima. Ele surgiu num sonho, naquele momento em que não se está nem dormindo nem acordado. Aí acordei com o assobio do vento na fresta da janela entreaberta:


Gênese do Poema


O Vento sopra em minha janela
Me mandando acordar
Sem mais delongas me levanto
Não me devo demorar

Sobre a mesa o papel
Em branco, em conflito
Me traz um sentimento aflito

Como os homens sobre a torre de Babel
Ou como em um verdadeiro bordel
Me sinto instigado, indignado
Num mesmo sentimento, tentado

Devo continuar
Devo escrever até que se acabem minhas forças
Com o pulso a latejar,
Meu coração a palpitar
Devo continuar

Porque enquanto o mundo gira
O poeta têm sua sina
Escreve, rasga, escreve, delira
Escreve, escreve, escreve e assina

O Papel estará sempre em branco



Augusto M. dos Anjos
20/11/03 7:47 pm

Concurso de Poesia III

Aqui vai o terceiro poema selecionado para o concurso:


Prosa-poema I

A vida é como um rio turbulento
Que nunca para de jorrar
Que jorra, jorra sem parar
É fluído, é instante, é momento

Incessante, passageiro
O mesmo de antes
E novo por inteiro

E as pedras que do leito esperam eternamente
Vendo o rio passar, fluir, jorrar, sem nunca esgotar,
Parecendo não sair do lugar

Não quero ser uma pedra que vê a vida passar a cada instante sem sair do lugar
Quero ser a gota que desce a corredeira que flui com a corrente da vida a morrer na imensidão do mar.



Augusto M. dos Anjos
25/02/06 8:10 pm
(Concebido à 3h do momento datado, embaixo de uma cachoeira)

Concurso de Poesia II

Aqui vai o segundo poema selecionado para o concurso:

Ontologia do Ser

O ser é um não ser que vai sendo sem cessar
Que já será outro quando esse verso acabar
Não obstante a sina que será,
Consciente do que foi e do que há

Sábio aquele que na jornada
Não vê ontem ou amanhã
Que aquilo que foi e já não é,
É tão presente quanto aquilo que será
Pois tudo é hoje

Sábio aquele que já é o que há de ser
Que já foi e continua sendo
Que não separa ontem, hoje ou amanhã pra ter
Aquilo que como menino, moço, velho
Deseja e tem de bom contento


Augusto M. dos Anjos
12/04/06 10:03 am

Concurso de Poesia I

Na faculdade acontecerá um concurso de poesia e escolhi 7 poemas, dos quais apenas 5 iram concorrer. Aqui vai o primeiro:

Papel Prozac

Donde jaz a depressão
Aquela que agora atormentava
Ganhou forma com a pena na mão
E essa já no papel despontava

Não é como estar novamente feliz
Mas já é um alívio, assim se diz
Quando o que sinto de mais forte
Se encontra no papel a toda sorte

E assim vou seguindo
Na existência me extinguindo
Mas não sem deixar um legado
Jamais me sentirei culpado

Pois assim como fala da criação, Balzac
Tornarei-o vivo, e farei do papel meu prozac


Augusto M. dos Anjos
30/06/04 12:42pm

Sorte ou Azar?

Sabe quando você pisa na merda e alguém te diz “é sorte”? Ou quando uma pomba caga em sua cabeça, melando sua camisa favorita e algum cretino de plantão também diz é sorte!?
As pessoas têm uma noção muito perturbada sobre o que é sorte. Não vejo como uma desgraça como essa possa ser um presságio de sorte. Ah tá! Talvez seja o karma, o yin-yang, a balança cósmica do equilíbrio universal, ou até mesmo Newton e sua física ditando “para cada ação uma reação igual e contraria”. Tendo isso implicito no inconsciente coletivo, a afirmação de sorte não passé talvez de uma dedução lógica irracional, calculada em frações de segundo, ou simplesmente pronta no subconsciente para poder sair. Assim “ Se a balança universal tende sempre a equilibrar as coisas, causando uma reação igual à uma ação adversa. E se tamanha desgraça lhe ocorreu sem que você tivesse feito nada para provocá-la. Então há de acontecer algo maravilhoso que remedie o tal fato.” , tendo o processo subconsciente terminado, a conclusão plausível, “Logo, é sorte”.
Parece uma idéia um tanto absurda pensar que o cara a seu lado, sem ter nada melhor pra dizer, ou nada útil para melhorar a situação, vá ter todo esse processo mental em segundos antes de exclamar a frase que você menos quer ouvir! Minto, a frase que você menos quer ouvir num momento como esse é: “Que merda, hein?”, a resposta mais educada para essa observação seria, “Ora, não me diga!”, ou ainda mais irônico, “Não, acho que é chocolate!”. Sem ter muito o que fazer, lhe resta limpar o sapato na sarjeta, ou a camisa com água, e esperer que a abnegada e compensatória rodada de sorte chegue logo.
Hoje um desses momentos de sorte me ocorreu. Muito embora não tenha merda na estória, talvez preferiria que tivesse. TALVEZ! Sai para o almoço e resolvi ir no restaurante recém-reinaugurado, depois da reforma da rua Pinheiros. O flyer era convidativo, o lugar nemtanto. Sentei. Pedi o prato e a garçonete me informou que o buffet de saladas estava incluso. Após me servir de uma grande variedade de vegetais folhosos e leguminosas, sentei e comi.
Comia calmamente quando, ao olhar para a alface, reparei em uma coisinha verde bem pequena. Seria o que pensava que era? “Não, provavelmente é uma minuscule vagem”, pensei, enquanto cutucava com o garfo para ter certeza. Não era uma vagem!
A minuscule coisinha, ou deveria dizer criaturinha, se contorceu ao toque frio do talher, quase como se dissesse oi.
Perdi repentinamente meu apitite. Mas o que fazer? O prato principal ainda nem havia chegado. Comi o resto da salada sem tocar na alface. Não sou tão fresco assim. Resolvi que diria à garçonete entre sussurros o pequeno segredo de sua salada mal lavada. No entanto, quando essa veio buscar o prato, a criatura já não estava lá. Tinha escorrido ou rastejado ou o que quer que fosse para a parte interna da folha. Ou talvez eu tivesse imaginado tudo. De qualquer forma, o resto da refeição não foi tão agradável. Não que a comida estivesse ruim, mas minha mente impressionada com o caso estava alerta para outras tantas surpresas que não ocorreram.
Ao pagar a conta recebi do dono um cartão de fidelidade (coma 6 ganhe 1). Muito irônico esse tal destino. Peguei o cartão e enfiei no bolso, ciente da minha missão de avisar ao mundo sobre aquele lugar. Voltei para o escritório com a certeza de que não é o tamanho do verme que importa, mas sim o asco que ele proporciona.
Quanto a sorte, ainda espero por ela até o final do dia. E se você leitor vai ainda almoçar, depois de ler isso, eu só posso lhe desejar “Boa Sorte”.


Augusto M. dos Anjos
26/07/06 14:52

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Cronica de Rotina

Sabe aqueles dias em que você acorda sem querer ter levantado? Aqueles dias em que sem motivo aparente, mas por uma boa razão, você deseja mandar tudo a merda e simplesmente continuar o que não estava fazendo o resto do dia?
O despertador tocou seis vezes, com intervalos cadênciados de 10 minutos, na última badalada, como se toda significãncia do momento estivesse expremida numa única expressão, salta pela minha boca involuntariamente todo o pesar e frustração, como se ainda fizesse parte do sonho ou como se não tivesse sido eu a falar mas outrem, diz-se: Filha da Puta!!!!
Alguém na casa ri e comenta: Filha da Puta , essa foi ótima! Hahahaha! Todos saem e o inevitável me espera, o infindável destino de mais um dia de rotina massacrante. Levanto-me enfim com preguiça, corpo mole, como se leva-se em cada ombro dez quilos, é o peso da consciência (da e não na).
Arrasto-me até o banheiro para uma ducha demorada. A água cai nas costas numa temperatura agradável, quase intra-ulterina; o banho é como uma continuação do sono. Divago alguns momentos sobre as horas que se sucederão no meu enfadonho dia. Depois de um bom tempo começo o banho realmente. Até o banho é uma rotina; um hábito ritualístico rigoroso, começando sempre da cabeça para depois chegar os pés. Algum dia ainda hei de quebrar o protocolo, começarei pelos pés e terminarei na cabeça, só pra se desviar da rotina.
Volto para o quarto. Visto a roupa também com relutância. Até parece que ela também sabe o que a espera. É como se cada botão da camisa negasse cada casa, e assim vou abotuando: Não, Não, Não! Opa, errei a casa. Ufa, Ufa, Ufa; Não, Não, Não, Não, Não, Não!
Caminho em direção a cozinha. Meu irmão menor assiste televisão na sala, ele está em férias escolares.
Na cozinha segue o ritual diurno: coloco dois croissants no forno e enquanto esse aquecem tomo uma tigela de cereais com leite. Como se não bastasse minha insistente vagarez deixa os croissants queimarem. Um café da manhã completo, vitamina A e fibras seguidas de cafeína e carbono.
Escovo os dentes. Na sala despeço-me de meu irmão enquanto espero o elevador. Por um breve momento sinto uma profunda inveja. “Aproveite! Dura menos do que se imagina”, penso eu enquanto lhe beijo a testa.
Desço no elevador, passo pela portaria e pego o jornal. A mesma merda de sempre, PCC, sangue-sugas, Hizbollah, intenções de voto, e, a novella da Varig. Coloco o jornal na mala. Caminho para o metrô.
Tudo anda conforme o sempre, igual a todos os dias que se sucedem. Mas, por alguma razão, hoje, especialmente hoje, assisto a tudo como alguém de for a, e o que vejo é enfadez, solidão e infelicidade. Será que trabalhar é isso? Será que vai ser sempre assim?
Como de costume a baldeação foi um tormento. Desafiando as leis da física as pessoas insistem que dois corpos podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo.
Saio do metrô e paro no ponto. Passa o primeiro ônibus, é quase impossível embarcar, a gente é transportado como se fosse gado nessa cidade. Desisto. Pego o próximo.
Para variar chego atrasado de novo. E, mal chego já estou atolado de afazeres burocráticos dos detalhes minuciosos, das pequenezas do processo produtivo, no caso a comunicação, mandar e-mails que jamais abriram e atualizar cadastros.
Não que o dia seja um dia ruim ou de má sorte. Não! Não que o dia tenha começado errado, de maneira nenhuma. Quem começou errado fui eu. Mas que culpa eu tenho de hoje ter despertado com a sábia clarivid~encia de entender e perceber a inutilidade dos atos rotineiros.
Enfim, mais um dia me espera, seja ele bom ou ruim. E a bem da verdade já ocupei tempo demais da carga horária com esse texto. Ao trabalho!


Augusto M. dos Anjos
20/07/06 9:56 am