terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Obsessão
Caminhava devagar, com seu passo manso a rebolar o quadril, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, nádega sobe, nádega desce, nádega sobe, nádega desce, e eu, enlouqueço.
Era o primeiro dia dela de trabalho, ou seria o meu primeiro de existência? Oi, meu nome é Jorge, prazer. Oi meu nome é....
Quem disse que eu ouvi, pra mim ela não tinha nome. Pra mim ela era uma bunda e nada mais. Não consegui mais trabalhar durante o resto do dia. Levantava os olhos da tela do computador a escrutinar todos os cantos da redação a procura de nada menos que uma bunda, não qualquer uma, mas A bunda. Grande, gigantesca, colossal, cada nádega apresentava a mais perfeita circunferência que nem mesmo Gioto seria capaz de fazer, e eu; eu queria me perder no centro delas num deleite sem fim de vai e vem animalesco e voraz, só pra ouvir aquela bunda gemendo.
6 horas. Graças a deus o dia acabou. Apesar disso sei que preciso me demorar alguns minutos a mais sentado em minha cadeira, esperando a bunda me sair da cabeça e poder assim me levantar sem maiores constrangimentos.
Segundo dia dela, ao que me parece a bunda está ligeiramente maior e ainda mais deliciosa. As horas passam num intervalo entre o prazer e a tortura. Se ao menos pudesse ter aquela bunda. A teria aqui mesmo, eu a jogaria encima da mesa, rasgaria sua calça de Lycra, e faria todos aplaudirem enquanto assistissem o coito ludibriante daquela bunda subjugada a minha vontade e minha libido incontrolável. Ou não tão incontrolável assim, afinal estaria eu aqui de conversa mole? Bem, não tão mole assim. 6 horas. Ainda pego essa bunda.
Terceiro dia, dessa vez é sério, a bunda realmente cresceu do dia para noite. Posso jurar que ela tem pelo menos 20 centímetros a mais de quadril do que ontem. Com ela cresce minha obsessão. Eu preciso ter essa bunda. Talvez se trombar com ela na porta do banheiro possa empurra-la de volta pra cabine a força, lambuzando-a como ela merece.
Teria ela com as pernas de salto fino para o ar, subindo e descendo no meu colo enquanto minhas mãos agarram e levantam cada nádega com vontade. Ok, vou no banheiro sem ela. 6 horas. Estou mais aliviado.
Quarto dia, devo realmente estar enlouquecendo. Juro por Deus, a bunda cresceu. Está enorme, não sei como ela consegue andar sem cair pra trás. A bunda é um convite que me devora. Quase a vejo falar. Venha, venha, veeenha. Estamos no elevador, só eu e ela, não creio que haja espaço pra mais ninguém. A bunda não deixaria. Ela pede licença para apertar o botão de seu andar. Sem querer, sua bunda roça levemente no meu pau. Perco a respiração. Será que ela percebeu. É claro que percebeu, aposto que fez de propósito. Está tentando me provocar. Passo o resto do dia a lembrar o toque daquela bunda. Ahhh a bunda. 6 horas.
Quinto dia, juro, ela não tem mais costas, já quase não tem corpo. Mais um dia e essa bunda vai ter crescido tanto que tomará todo o escritório. Agora sobra apenas a bunda e uma face quase imperceptível. Tenho certeza que ela me provoca. Vem com frequência à minha mesa entregar papéis e relatórios que deviam ir para outros departamentos. Passeia pelos corredores insinuantemente, atraindo olhos como imãs. impossível não notar. Já não sei o que é trabalho, há dias que nem ligo o computador. Já não finjo trabalhar, apenas invento desculpas para ver, e quem sabe tocar, aquela bunda. Ela foi pra máquina de Xerox, é minha deixa. Aproximo-me como quem não quer nada. Deixo ela ir primeiro, afinal a Xerox pouco me interessa. Uma de suas folhas cai e ela, inocentemente, abaixa para pegar. E de repente é isso, o mundo a minha volta sucumbe, já não existe mais nada, não existe sala, redação, edifício, planeta. Apenas eu orbitando em volta de uma enorme bunda que cresce e me extasia. Ela continua crescendo e crescendo, já não há mais espaço, eu tocarei essa bunda não só com minha mão mas com meu corpo inteiro, ela vai crescer e crescer até me engulir, ela vai crescer até enguliar tudo que existe, e crescendo e crescendo até explodiiiiir Aaaaahhhhh.
Sim, explodiu. Explodiu meu devaneio num estorpor de um orgasmo que não tive como segurar. E quando vi estava eu, gritando no meio do escritório, agora todo melado com uma bunda em minhas mãos e toda a redação a assistir a cena. Não foi assim que imaginei. Mas como você pode imaginar não houve mais bunda ou redação. É triste uma carreira jornalística ver seu fim assim. Por causa de uma bunda. Mas sabe do que mais, não me arrependo nem por um segundo.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Um Rouxinol chamado Sartre
Ele não canta. Ele mal se mexe. Encolhido em sua resignação ele apenas fica.
E eu a olhar pra ele me pergunto: por que não canta? por que não exerce a única função a que a natureza lhe destina? Teria ele plena consciência de seu cativeiro? Ou seria talvez, por motivo muito mais nobre que mantém seu silêncio resignado?
Sua soberba tristeza é o que o destaca, o que o torna único, o que o torna belo. Dentre tantos só ele consegue se distinguir. E só assim tão facilmente.
Talvez tenha essa consciência. Talvez saiba ele que o não cantar é seu maior canto.
Pudera. É apenas um passáro. Seria por demais achar, num puro delírio, que um simples passáro teria essa série de questionamentos filosóficos perante sua própria vida.
Sim, apenas um pássaro. Mas seu canto é um protesto, uma poesia silenciosa, uma conversa sem prosa, uma melodia a arrancar lágrimas de seus atentos ouvintes. Ele canta a Liberdade.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Todo mundo merece sobremesa
Ela “Não quero que você vá. quero que fique e converse comigo.” pega no braço dele.
Ele “por que quer que eu fique?” na orelha dela.
Ela “porque de repente me senti tão sozinha.” alisa o peito dele colocando a mão dentro da camisa entre aberta.
Ele “ o que eu ganho se ficar?” alisa-lhe a coxa pela parte de dentro da saia.
Ela “Você não pode ir. Ainda estamos todos comendo e bebendo, e você ainda nem comeu a sobremesa” lambe-lhe a orelha.
Ele “E o que há de sobremesa?” com a mão em concha aperta-lhe a boceta por sobre a calcinha.
Ela “Eu preciso ver no cardápio” a mão que alisava o peito desce por sob a camisa até o volume do lado direito da calça.
Ele “Você está molhada.”
Ela “todo mundo merece sobremesa.”
Ele “E eu quero a entre as suas pernas.”
Ela “Aiii, garçom, a conta.”
Silêncio. A mesa parou. todos olharam para eles espantados.
Ele “Achei seu brinco” falando alto para todos ouvirem e abaixando pra pegar na tentativa de disfarce.
Ela “E a saidera, claro.” gritando pro garçom também na tentativa de disfarce.
E tomaram mais uma cerveja. Indo embora e despedindo-se em momentos diferentes. Deixando a sobremesa pro dia seguinte.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Depois da Chuva
Fome
O relógio da igreja bate. Bate. Bate. Bate. Bate.bate. bate. bate. Bate. Bate. Bate . bate.
Enquanto o vento ssssopra.
E
a
s
f
o
l
h
a
s
c
a
e
m.
E o estômago.
O estômago roca.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Preguiça
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
O Muro
Um muro. Ninguém sabia ao certo desde quando estava lá ou o que era antes. O fato é que agora era apenas um muro. Um muro no meio do nada, sem nada
No dia seguinte trouxe outro pra lamentar consigo. E assim foram se ajuntando, muitas centenas para lamentar. E tanto lamentavam que atraiam para seu em torno mais lamentações, tornando a terra do muro lamentável.
Assim são os muros, eles dão aquilo que recebem
Mas aquele muro era diferente, era só para se lamentar e o povo do muro não ligava muito pra outros muros por aí a fora. Gostava mesmo era de se lamentar encostando no muro. E de tanta lamentação o muro já lamentava sozinho. O muro lamentava por seu povo sempre em guerra, promovendo um genocídio e expulsando da terra um outro povo. Esse povo gostava era de pedra. Não muito longe dali havia uma pedra. Ninguém sabia ao certo desde quando estava lá ou o que era antes. O fato é que agora era apenas uma pedra. Uma pedra no meio do nada, sem nada
