segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Espermograma

Pode existir episódio mais constrangedor para um homem do que passar por um espermograma? Sei que as mulheres que lerem isso dirão “isso não é nada perto de um papanicolau”, se formos comparar com as inúmeras provações pelas quais uma mulher tem de passar não haveriam folhas de papel ou kbytes suficientes, o natural privilégio masculino não está em questão, e sim um típico estigma social, expresso aqui na trivialidade e frieza de um exame laboratorial. Assim as mulheres que me perdoem mas o que estou para descrever é uma experiência não muito cotidiana.
Como em todo exame, fui recepcionado, meus dados foram inseridos no computador e fui encaminhado para a sala de espera, onde deveriam me chamar pelo nome. Os minutos passam e finalmente sou chamado. Acompanho a enfermeira até a sala da coleta. Aliás, bem diferente do imaginário de senso comum e popular, a enfermeira nunca é gostosa. Entramos na sala e ela prepara o material:
- O senhor conhece o procedimento?
Talvez por puro sadismo respondo:
- Não
- O senhor faz a assepsia peniana com esse algodão umedecido de soro, depois com esse umedecido com água, depois seca com essa gaze, abre o potinho, coleta todo o material, sem exceção, eu disse todo, fecha o potinho. Depois que tudo tiver acabado o senhor aperta esse botão e aguarda a atendente com o seu recibo. Ficou claro?
- Sim
A sala era aconchegante como um hospital, parede branca, luz branca, tudo com aquela ligeira impressão de estar tão limpo que está sujo. No meio da sala uma poltrona branca, coberta com um lençol descartável que a enfermeira estendera antes de sair. Em frente a TV, com transmissão via satélite e vídeo embutido. Ao lado um revisteiro com uma única playboy toda amassada e amarrotada dentro, que ninguém em sã consciência ousaria tocar suas páginas grudadas, nem que fosse da mulher mais gostosa do mundo; Playboy edição especial Angelina Jolie e Daniela Sarahyba fazem ménage com Gisele Bündchen. Não distante, o banheiro onde a assepsia deveria ser feita.
Tirei a camiseta e pendurei na arara. Arriei as calças. Comecei a assepsia. Incrível como o leve toque do algodão pode deixar alguém já em ponto de bala. Andando de calças arriadas com o potinho na mão, sente na poltrona e liguei a TV. Toda animação sumiu após 10 min perdidos tentando entender como colocar no canal necessário, tirando o bloqueio que a operadora coloca para canais adultos. O controle e a tela, que pareciam conter instruções em russo, me irritaram. “Foda-se”, apertei o play. Depois de um tempo estávamos prontos de novo. Eis que me ocorre, “Como coletar todo o material, não é logicamente possível.” Para quem não entendeu, vamos ao português claro, ou melhor, a física: a angulação do órgão, o potinho virado de boca para baixo logo acima do órgão angulado para captar o primeiro disparo, sim, mas a gravidade e o resto do “material” que não sairia num jato, mas logo em seguida. Ou seja, muita pontaria e agilidade com a mão esquerda, já que a direita estaria ocupada, além do desconforto da situação e do ambiente agregados. Ahh! E como não esquecer a estranheza proporcionada por estar sentado nu numa poltrona revestida com um lençol descartável, desses que lembram as fraldinhas de nenê.
Resolvi por bem tirar o resto das calças e cueca engruvinhadas no meu tornozelo. Pendurrei-as na arara. Comecei o inexorável e ritmado ato que me levara até lá para o exame. Até que não foi difícil, só o incomodo de um gesto tão privativo numa situação tão pública e formalizada.
“Pronto tudo no potinho, muito destro eu fui, ou será canhoto? Opa! Quase tudo.” “O que há de se fazer.” Fechei o potinho, me limpei, vesti as roupas, joguei o lençol no lixo e apertei o botão. 5 minutos depois me aparece a enfermeira:
- O senhor perdeu alguma coisa?
- Uma gota.
- Vou ver se o medico pode dispensá-lo, só um minuto por favor.
Mais 5 minutos.
- O senhor prefere voltar aqui outro dia e repetir o procedimento, ou assinar um termo dizendo que perdeu-se uma gota?
Era só o que me faltava.
- Você tá brincado né?
- ...
- Ta, eu assino o termo.
- Rubrique aqui e aqui para dizer que está ciente de que perdeu-se uma gota.
Como se alguém pudesse estar mais ciente do que eu.
- Seu medico será notificado.
- Ora, muito obrigado.
- Saída 2ª a direita.
Eis o cúmulo da burocracia hospitalar, assinar um termo por gozar fora do potinho. Não existe melhor definição para o caso, a não ser escroto.

Augusto M. Anjos
10/02/07 1:08pm

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Brasil - Um País de pequeno-burgueses

(inspirado e tmabém "cansado" resolvi criar um novo marcador no meu blog. Chamará "K entre nós", e será onde comentarei notícias e assuntos do agenda setting nacional.)

Despropositada a reação de nosso Excelentíssimo Presidente Lula e seu "companheiro" de causa, o governador do Rio de Janeiro a um protesto pacífico durante um comício de inauguração de uma escola.
Esse país carece de políticos que aceitem críticas e a indignação da população a cerca da canalhagem de como as coisas tem sido levadas.
Afirma o presidente que meus queridos colegas universitários não tem consciência política. A meu ver, não há melhor oportunidade para se fazer ouvir sobre a crise educacional desse país do que na inauguração de uma escola, cito o reajuste salarial a 12 anos parado e motivo do protesto, sem falar no fracasso em que se configura a reforma universitária.
Falta de cosciência política é fechar os olhos a indignação da população, que se Cansei ou se Cansamos, não aguenta mais o lero-lero de sempre. Finalmente um pouco de espírito coletivo nessa nação tão desagregada e tudo que nossos governantes fazem é fechar os olhos. Fechar os olhos para uma crise mundial que não só afetou oBrasil como nos fez perder trilhões de reais em semanas.
Para quem lutou por democracia e igualdade uma vida inteira como sindicalista e revolucionário, nosso presidente parece ter esquecido totalmente suas origens. E falando em ideologia marxista, todo o cuidado é pouco com os pequeno-burgueses, termo que fora da doutrina vermelha pode equivaler a classe média.
Os pequeno-burgueses são o sustentáculo da opinião pública neste país. Afinal, venhamos e convenhamos o poder de influência da elite, como classe e desconsiderando instituições estabelecidas como a imprensa, nesse país é pouco significativo. Foram os pequeno-burgueses que elegeram Fernando Collor de Melo e foram eles que na última eleição elegeram Vossa Senhoria, o Todo Poderoso, Intocável e Icensurável Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porque não é só de voto de pobre (como gosta de dizer o próprio) que se fez uma candidatura eleita em 80%. Talvez com atos semelhantes os famigerados pequeno-burgueses também se cansem;é o que veremos na próxima eleição.

Augusto M. Anjos
17/08/07 1:36pm
(referente a reportagem da Folha de S. Paulo de mesma data - Caderno Brasil, pág A6)