segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Série Casa de Família

A Casa de Brigadeiro



Alberto Vidaboa passou um ensinamento importante pra seu filho Leonardo, que esse certamente levará por muito tempo: “viver não é fácil, filho. Tem muita pedra no caminho pra contornar. Mas no fim das contas é bom pra caralho.”. É, Leonardo bem o sabia.
A história de Leonardo já começa em provação no ato do nascimento. Alberto Gonçalves Vidaboa e Luciana Vettri Vidaboa não pretendiam ter um filho tão cedo. Ambos eram estudantes de medicina na Federal de Uberaba. Para sustentar o filho, Alberto trocou os bares do Centro Acadêmico por uma barraquinha de cachorro-quente. Estudava de noite e de dia corria atrás do ganha pão e da fralda do menino. Provavelmente a determinação empregada nessa época da vida levou a luta como um hábito incorporado da família.
Com doze anos Leonardo vivia na casa de dois respeitáveis cirurgiões da região mogiana do estado de São Paulo. Uma casa cheia de riqueza e felicidade. Leonardo tinha duas irmãs. Paula, a do meio, puxará bem o pai e desde cedo se mostrou estudiosa, organizada, determinada e pragmática. Camila, a menorzinha, puxava o irmão e a mãe. Esses por sua vez sempre demonstraram um amor pelo perigo, pela boemia, pela impulsividade e por uma alegria contagiante; ainda que por enquanto Leonardo não tenha exercido na plenitude essas qualidades.
Leonardo faz hipismo. Seu pai é seu treinador. Ele cai do cavalo. A dor é avassaladora.
“ Você caiu? Pois LEVANTE. Vai deixar esse bicho te vencer!” Leonardo levanta, ainda meio com dor sobe no cavalo e volta a treinar. Não ousou responder ao pai. Manteve o silêncio resignado. No fundo sabia o quanto aquilo era importante. Faltavam 2 dias para a competição. Leonardo treina exaustivamente. Depois de 6 horas ele e o cavalo são um só. Um majestoso centauro que salta impiedosamente todo obstáculo no seu caminho. Até que a parte homem cede e desfalece no chão de cansaço e desnutrição enquanto a parte bicho continua a cavalgada até o fim da prova. A vida parece drasticamente desafiante. Comportamentos como esse condizem com a personalidade e a psique de Leonardo, um garoto hiperativo.
Com 16 essa hiperatividade se une ao ímpeto juvenil. Leonardo tem uma moto e costuma sair com seus amigos para praticar motocross sem capacete. Joga vídeo-game 72 horas seguidas até conseguir finalizar complexos jogos de RPG. Desmonta e remonta seu computador inúmeras vezes só pela gana de se aprofundar ao máximo em um assunto. E apesar disso procura expandir seus horizontes tentando conhecer um pouco de tudo, física, matemática, história, filosofia, arte. Essa gana de viver lhe é implícita, é sua essência. E o desafio é como o combustível que o move, ainda que esse desafio seja subverter a tradição familiar. Na época do vestibular Leonardo resolve boicotar a prova para a faculdade de medicina em Uberaba e presta Publicidade em São Paulo. O simples fato de contradizer a ordem estabelecida já o excita. Ele sabia que estava comprando uma bela briga com os pais e ainda assim o fez. Revolucionário de plantão, Leonardo, apesar dos pesares, sempre foi o mais carinhoso de toda família e seu carinho transborda sua alegria de viver em sorrisos constantes que contagiam a todos. Afinal “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. Mais uma batalha vencida e a vida vai se estabilizando novamente num céu de algodão doce. Leonardo tem um apê alugado próximo a faculdade em São Paulo e no último fim de semana de cada mês volta para o interior para ver a família e a namorada que tanto estima. A doce Laura Vega, estudante de artes cênicas. A vida parece perfeita. Mal sabia Leonardo que o verdadeiro desafio estava por vir.
Era uma tarde ensolarada de domingo e depois de assar um bolo de fubá e passar um café, Luciana sorvia a bebida quente na varanda olhando fixamente para o céu e apenas aproveitando o passar do tempo sereno. Leonardo deita ao seu lado, com a cabeça no seu colo. Eles conversam suavemente pela tarde caindo sobre bobagens corriqueiras e tão agradáveis de se papear. O sentimento no ar é de uma sublime despedida, ainda que não houvesse motivo para tal. Ambos aproveitavam o prazer da companhia um do outro naquela tarde como se o tempo lhes escorresse pelas mãos e tivessem a certeza de que aquele momento seria inesquecível, não se repetindo jamais.
Na segunda a noite, já em São Paulo, Leonardo recebe uma ligação. A mulher no outro lado da linha parecia pesarosa ao falar. Luciana tivera uma parada cardíaca no vestiário da ante-sala de operação. Não foi socorrida a tempo e apesar de terem-lhe salvado a vida, ela entrou num estado vegetativo devido a lesões no tecido cerebral por falta de oxigenação. Não havia volta. Não havia esperanças de melhora. Ela se fora para todo sempre ainda que continuasse lá. Não era mais ela. Era um outro alguém com o rosto dela, alheio a tudo que o cercava.
Como sobreviver a essa agonia. Como curar essa dor aguda e constante. Essa melancolia que pesa no corpo. Esse vazio. Essa falta. Já não há desafios que valham a pena. Já não há porque lutar. Já não há porque viver e sim apenas se deixar levar, ao leo pela existência fatídica. Claro que existe ainda o apoio daqueles que ficam e nos amam. O valente e determinado Alberto Vidaboa devia agora se mostrar mais forte do que nunca. Devia suprir ambos os papéis, materno e paterno, para seus três filhos e ajuda-los a superar a dor latente da perda. E Laura também estava lá dando seu carinho e consolo. Nenhuma outra faria igual por ele com tamanha dedicação em fazer do seu relacionamento um ponto de partida para uma nova fase. Mas era tarde e Leonardo já havia se perdido. Perdeu seu foco. Se entregou, com a mesma determinação que cavalgava, aos prazeres mais boêmios, tentando suprir a dor com um hedonismo desenfreado. Leonardo Vidaboa viveria custe o que custar e doa a quem doer. Seu namoro com Laura já não funcionava, já que havia ali um certo desapego, uma despreocupação sutil e por conseguinte um distanciamento progressivo. Leonardo ainda era carinhoso, gentil e sorridente, transbordando alegria, como sempre fora. No entanto estava sempre distante, sempre num sorriso quase ausente. O namoro por fim chegou ao seu desfecho. E agora Leonardo podia se entregar totalmente a vida e vive-la sem culpa e sem pecado pois não havia a quem responder. Ele era totalmente livre. Livre para o que der e vier. Para cada bar e cada festa e cada samba de roda e cada lira dessa grande metrópole.
E foi justamente numa dessas festas que Leonardo finalmente se reencontrou. Ou melhor encontrou Karina. Karina, morena de 1,75 bem torneada, era independente, sofisticada, hedonista como nosso amigo, no entanto bem sucedida executiva e preocupada com a carreira. Às vezes excessivamente preocupada.
Era um fim de festa no edifício Copan, Leonardo vê Karina num canto. De repente Leonardo só vê Karina e mais nada. Ele a puxa pra dançar. Um passinho pra cá, um passinho pra lá, uma conversa ao pé da orelha, uma longa conversa ao pé da orelha, até que finalmente um beijo. Não simplesmente um beijo, mas um momento de êxtase único e incomparável, o encaixe perfeito entre lábios, bocas que casam com primazia e que a cada movimento se complementam. Leonardo abri um sorriso de orelha a orelha, como uma criança que acaba de ganhar um doce ou um pensionista com um bilhete premiado da loteria acumulada. Karina flagra e justamente nesse momento seu coração palpita de emoção. E de um sorriso farto começa uma história de amor e devoção. Leonardo se reforma, só a olhos para ela, a vida tem novamente sentido e ele finalmente pode voltar a ser um Vidaboa.
Karina mora na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, num apartamento modesto próximo ao metrô. E é assim que Leonardo ganha uma segunda casa. Sua casa de brigadeiro, onde as noites são doces e suaves, onde a vida flui com alegria sutil que emana em perfume de flores pelo ar. É terça-feira, Leonardo compra um vaso. Um belo vaso e coloca na cabeceira da cama: “Esse é o nosso amor. Aqui nós o vamos cultivar. Essa é uma flor para você minha flor, que colocarei aqui e que a cada nova terça-feira hei de trocar.”
Mas nem tudo na vida é um mar de flores. Karina tinha sido muito calejada por antigos relacionamentos e sofrerá muito. Assim mantinha sempre um pé atrás e com o histórico de nosso herói, essa coisa de confiança não ia lá muito bem. A bem da verdade que ninguém muda do dia para noite e, apesar de Leonardo só ter olhos para Karina e a venerar em sua beleza e plenitude, ele continua por vezes distante e despreocupado. Não de propósito mas por hábito. De maneira que por mais que a amasse imensamente não pode cumprir sua promessa e esqueceu de flores novas na terça-feira ou uma conversa de desabafo de vez em quando. A desconfiança de Karina e o An passan de Leonardo foram corroendo a relação. Até que Karina preferiu estar sozinha a ter alguém com quem não podia sempre contar.
Mas a vida é assim, vivemos em momentos diferentes uns dos outros e nem sempre estamos prontos e disponíveis para qualquer situação. Às vezes precisamos evoluir e para evoluir é preciso um safanão da vida, é preciso perder algo para ganhar outra coisa por outro lado. Leonardo Vidaboa sentiu profundamente o fim desse namoro e percebeu o quanto a amava, o quanto havia se perdido e o quanto ela havia lhe salvado. Leonardo se propôs então a deixar na porta da casa de brigadeiro uma flor a cada nova terça-feira. E a flor ia do capacho para o lixo. E na próxima terça-feira outra flor.
Foram 4 meses até que a flor fosse da soleira da porta para dentro do vaso na cabeceira. E ainda hoje está lá, a flor de laranjeira no vaso da cabeceira da casa de brigadeiro. E a casa pode ser novamente completa e plena.








Augusto Moreno dos Anjos
30/08/08