sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Cronica de Rotina

Sabe aqueles dias em que você acorda sem querer ter levantado? Aqueles dias em que sem motivo aparente, mas por uma boa razão, você deseja mandar tudo a merda e simplesmente continuar o que não estava fazendo o resto do dia?
O despertador tocou seis vezes, com intervalos cadênciados de 10 minutos, na última badalada, como se toda significãncia do momento estivesse expremida numa única expressão, salta pela minha boca involuntariamente todo o pesar e frustração, como se ainda fizesse parte do sonho ou como se não tivesse sido eu a falar mas outrem, diz-se: Filha da Puta!!!!
Alguém na casa ri e comenta: Filha da Puta , essa foi ótima! Hahahaha! Todos saem e o inevitável me espera, o infindável destino de mais um dia de rotina massacrante. Levanto-me enfim com preguiça, corpo mole, como se leva-se em cada ombro dez quilos, é o peso da consciência (da e não na).
Arrasto-me até o banheiro para uma ducha demorada. A água cai nas costas numa temperatura agradável, quase intra-ulterina; o banho é como uma continuação do sono. Divago alguns momentos sobre as horas que se sucederão no meu enfadonho dia. Depois de um bom tempo começo o banho realmente. Até o banho é uma rotina; um hábito ritualístico rigoroso, começando sempre da cabeça para depois chegar os pés. Algum dia ainda hei de quebrar o protocolo, começarei pelos pés e terminarei na cabeça, só pra se desviar da rotina.
Volto para o quarto. Visto a roupa também com relutância. Até parece que ela também sabe o que a espera. É como se cada botão da camisa negasse cada casa, e assim vou abotuando: Não, Não, Não! Opa, errei a casa. Ufa, Ufa, Ufa; Não, Não, Não, Não, Não, Não!
Caminho em direção a cozinha. Meu irmão menor assiste televisão na sala, ele está em férias escolares.
Na cozinha segue o ritual diurno: coloco dois croissants no forno e enquanto esse aquecem tomo uma tigela de cereais com leite. Como se não bastasse minha insistente vagarez deixa os croissants queimarem. Um café da manhã completo, vitamina A e fibras seguidas de cafeína e carbono.
Escovo os dentes. Na sala despeço-me de meu irmão enquanto espero o elevador. Por um breve momento sinto uma profunda inveja. “Aproveite! Dura menos do que se imagina”, penso eu enquanto lhe beijo a testa.
Desço no elevador, passo pela portaria e pego o jornal. A mesma merda de sempre, PCC, sangue-sugas, Hizbollah, intenções de voto, e, a novella da Varig. Coloco o jornal na mala. Caminho para o metrô.
Tudo anda conforme o sempre, igual a todos os dias que se sucedem. Mas, por alguma razão, hoje, especialmente hoje, assisto a tudo como alguém de for a, e o que vejo é enfadez, solidão e infelicidade. Será que trabalhar é isso? Será que vai ser sempre assim?
Como de costume a baldeação foi um tormento. Desafiando as leis da física as pessoas insistem que dois corpos podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo.
Saio do metrô e paro no ponto. Passa o primeiro ônibus, é quase impossível embarcar, a gente é transportado como se fosse gado nessa cidade. Desisto. Pego o próximo.
Para variar chego atrasado de novo. E, mal chego já estou atolado de afazeres burocráticos dos detalhes minuciosos, das pequenezas do processo produtivo, no caso a comunicação, mandar e-mails que jamais abriram e atualizar cadastros.
Não que o dia seja um dia ruim ou de má sorte. Não! Não que o dia tenha começado errado, de maneira nenhuma. Quem começou errado fui eu. Mas que culpa eu tenho de hoje ter despertado com a sábia clarivid~encia de entender e perceber a inutilidade dos atos rotineiros.
Enfim, mais um dia me espera, seja ele bom ou ruim. E a bem da verdade já ocupei tempo demais da carga horária com esse texto. Ao trabalho!


Augusto M. dos Anjos
20/07/06 9:56 am

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