Sabe aqueles dias em que você acorda sem querer ter levantado? Aqueles dias em que sem motivo aparente, mas por uma boa razão, você deseja mandar tudo a merda e simplesmente continuar o que não estava fazendo o resto do dia?
O despertador tocou seis vezes, com intervalos cadênciados de 10 minutos, na última badalada, como se toda significãncia do momento estivesse expremida numa única expressão, salta pela minha boca involuntariamente todo o pesar e frustração, como se ainda fizesse parte do sonho ou como se não tivesse sido eu a falar mas outrem, diz-se: Filha da Puta!!!!
Alguém na casa ri e comenta: Filha da Puta , essa foi ótima! Hahahaha! Todos saem e o inevitável me espera, o infindável destino de mais um dia de rotina massacrante. Levanto-me enfim com preguiça, corpo mole, como se leva-se em cada ombro dez quilos, é o peso da consciência (da e não na).
Arrasto-me até o banheiro para uma ducha demorada. A água cai nas costas numa temperatura agradável, quase intra-ulterina; o banho é como uma continuação do sono. Divago alguns momentos sobre as horas que se sucederão no meu enfadonho dia. Depois de um bom tempo começo o banho realmente. Até o banho é uma rotina; um hábito ritualístico rigoroso, começando sempre da cabeça para depois chegar os pés. Algum dia ainda hei de quebrar o protocolo, começarei pelos pés e terminarei na cabeça, só pra se desviar da rotina.
Volto para o quarto. Visto a roupa também com relutância. Até parece que ela também sabe o que a espera. É como se cada botão da camisa negasse cada casa, e assim vou abotuando: Não, Não, Não! Opa, errei a casa. Ufa, Ufa, Ufa; Não, Não, Não, Não, Não, Não!
Caminho em direção a cozinha. Meu irmão menor assiste televisão na sala, ele está em férias escolares.
Na cozinha segue o ritual diurno: coloco dois croissants no forno e enquanto esse aquecem tomo uma tigela de cereais com leite. Como se não bastasse minha insistente vagarez deixa os croissants queimarem. Um café da manhã completo, vitamina A e fibras seguidas de cafeína e carbono.
Escovo os dentes. Na sala despeço-me de meu irmão enquanto espero o elevador. Por um breve momento sinto uma profunda inveja. “Aproveite! Dura menos do que se imagina”, penso eu enquanto lhe beijo a testa.
Desço no elevador, passo pela portaria e pego o jornal. A mesma merda de sempre, PCC, sangue-sugas, Hizbollah, intenções de voto, e, a novella da Varig. Coloco o jornal na mala. Caminho para o metrô.
Tudo anda conforme o sempre, igual a todos os dias que se sucedem. Mas, por alguma razão, hoje, especialmente hoje, assisto a tudo como alguém de for a, e o que vejo é enfadez, solidão e infelicidade. Será que trabalhar é isso? Será que vai ser sempre assim?
Como de costume a baldeação foi um tormento. Desafiando as leis da física as pessoas insistem que dois corpos podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo.
Saio do metrô e paro no ponto. Passa o primeiro ônibus, é quase impossível embarcar, a gente é transportado como se fosse gado nessa cidade. Desisto. Pego o próximo.
Para variar chego atrasado de novo. E, mal chego já estou atolado de afazeres burocráticos dos detalhes minuciosos, das pequenezas do processo produtivo, no caso a comunicação, mandar e-mails que jamais abriram e atualizar cadastros.
Não que o dia seja um dia ruim ou de má sorte. Não! Não que o dia tenha começado errado, de maneira nenhuma. Quem começou errado fui eu. Mas que culpa eu tenho de hoje ter despertado com a sábia clarivid~encia de entender e perceber a inutilidade dos atos rotineiros.
Enfim, mais um dia me espera, seja ele bom ou ruim. E a bem da verdade já ocupei tempo demais da carga horária com esse texto. Ao trabalho!
Augusto M. dos Anjos
20/07/06 9:56 am
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
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