quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

A Pescaria

Dia manso,
Na beria do açude,

E o mosquito zumbi.
zzzzz. zzzz. zzzz,

E o dia passa,
E na vara nada,

E a pomba fogo apagou canta,
Fogo pagooo, fogo pagooo,

E chove espaçado,
Pingando de leve na beira d'água,
Bem de leve . . .

E a barriga ronca,
E nada.

Augusto M. dos Anjos
31/12/06
12:07 pm

A Brisa

Na orla da praia a meditar
Eis que vem aquele cheiro salgado
Um ar meio mareado
Chega até o pulmão esquentar

Respiro fundo
O cheiro do mar
Sem pensar
viajo o mundo
Tão logo chego a meditar

Deve ser a brisa do mar.

Augusto M dos Anjos
09/12/06
12:38 am

Serie IgNobel 2006 - Nem sempre a vitoria cheira bem

(Sei que estou meio atrasado, mas aqui está o primeiro conto basedado na reportagem dos ganhadores do Ignobel em 2006. Divirtam-se)


Nem sempre a vitória cheira bem

O Dr. Jacques Molié fora enviado como representante da Unesco à ilha de Bora-bora para erradicar uma terrível epidemia de malária. PHD pela universidade de Souborné, o doutor Jacques Molié era especialista no estudo de sistemas erradicativos de doenças letalmente infecto contagiosas. O doutor Jacques Molié já tinha erradicado o sarampo no Japão, a esquistossomose na Bolívia, a febre amarela no Zimbábue e a hipocrisia no palácio do planalto; e agora, pelo seu extenso e magnífico currículo estava dentro de um avião das Nações Unidas com destino à pequena ilha do Atlântico, para uma última missão antes de sua aposentadoria. Quem sabe dessa vez a missão não lhe rendesse a tão esperada Legião de Honra, ou quizá o tão cobiçado prêmio Nobel de biologia.
O Dr. Jacques Molié tinha um estranho método de proceder os seus estudos, o qual gostava de chamar de Biologia Antropológica. Seus procedimentos consistiam em entrar na rotina do povo nativo, experenciar a vida nativa numa pesquisa etnográfica, se possível contrair a doença para entender um meio de erradica-la.
Assim o fez, conversou com uma família e se instalou em sua cabana. Pela manhã iria vivenciar o típico dia de trabalho de um adulto bora-borano.
Pelo adiantado da hora pediu licença a família hospedeira e foi se instalar em sua rede. A noite não foi nada boa, alem de incessantes e insuportáveis mosquitos e pernilongos, a zumbir e picar, havia o fato de que dormir em rede não é um hábito muito usual para nosso amigo europeu ocidental, e portanto desconfortável.
Acordou pela manhã com milhares de feridas e picadas pelo corpo e uma ligeira dor nas costas. O café estava posto, banana e broa de milho com feijão, acompanhado de café preto, tipicamente bora-borense. Comeu. Vestiu os sapatos de couro de lagarto, confeccionados pela própria dona da casa, e foi com o chefe da família para a cidade trabalhar engraxando sapatos dos turistas e vendendo colares de conchas ou trocando sal por alimentos.
A cidade ficava à 15 km e como a família não tinha carro e o transporte público era precário deveriam ir a pé. Jacques nunca tinha feito um estudo tão desgastante, a vida desses nativos era dura e sofrida, mas Jacque não reparava neles traços de infelicidade. Poderia dizer até que eram felizes? Quem sabe?
Depois de um duro dia de trabalho deveria dedicar três horas ao menos à pesquisa. No entanto, decidiu primeiramente escrever para a mulher na França, pedindo que lhe enviasse brioches e queijo lindenburger. Não agüentaria por muito tempo aquele café da manhã, já que tinha o apurado paladar da alta gastronomia francesa.
Tirou os sapatos; escreveu a carta, começou a verificar depois em seus livros o ciclo de vida do mosquito hospedeiro e os principais aspectos do contágio da malária. Percebeu que as fêmeas, que em determinado momento crucial para o contágio deveriam procurar um lugar para depositar seus ovos, sentia forte atração por odores acentuados e característicos. Quem sabe aí a chave para um possível sistema de erradicação. Foi jantar.
A casa fedia ao chulé dos dois homens que trabalharam o dia inteiro com sol a pino e andaram 30 km para locomover-se do vilarejo a cidade e vice-versa. A mesa, rodeada de mosquitos naquele mormaço tropical tinha posta um ensopado de peixe de couro da lagoa e crustáceos da baía. Comeu o que pode da mistura com forte tempero nativo, com uma colher em uma mão, enquanto afastava com a outra os mosquitos da cumbuca. Foi deitar-se exausto, premeditando a horrível noite de sono.
Ao acordar, colocou logo as botas e sentiu um leve incomodo na palma do pé. Tirou o sapato para verificar o que era. Uma fêmea do mosquito da malária tinha escolhido seu sapato como repositório de ovos e no exato momento em que vestiu a bota, esmagou a pequena criatura, que em legítima defesa, num último ato desesperado, picou seu agressor, transmitindo-lhe a temida praga.
Agora tinha um motivo a mais para encontrar um sistema de erradicação contagiosa. O Dr. Jacques Mole não se abalou com o ocorrido. Ao invés disso observou atentamente o fato, pensando o porque o mosquito tinha escolhido seu calçado para colocar os ovos. Foi quando lembrou-se do que tinha lido a noite passada, odores fortes característicos, é o que dissera o livro. Teria o mosquito fêmea sido atraído por seu chulé? Era preciso comprovar empiricamente.
Não foi trabalhar, ao invés disso pegou todos os calçados do casebre que continham chulé, colocando-os em seu quarto, e observou o comportamento dos mosquitos o resto do dia. De fato, conseguiu provar, após 10 pares de calçados, 6 picadas, uma dor de cabeça, e uma incrível resistência adquirida ao cheiro de chulé, que o mosquito fêmea da malária era atraído pelo odor dos sapatos. Restava agora achar um meio de acabar com os mosquitos, ou com o chulé; uma pomada quem sabe; um estoque infindável de pó Granado cedido pela ONU. Alguma coisa pratica e rápida, mas o que?
Na manhã seguinte, na hora do café, a dona da cabana avisou ao Dr. Molié que sua encomenda tinha chegado. Jacques mal pode esperar, abriu o pacote e viu seus brioches e o queijo lindenberg, fechou os olhos e sentiu o cheiro do seu café da manhã a la francesa. Por um instante não entendeu, “esse cheiro me é familiar”, “É o cheiro do meu quarto”, “meu café tem o cheiro do meu quarto” “Voilà! O queijo lindenberg cheira chulé” “Allor, é essa minha chave para o sistema.”.
O Dr. Molié pediu a ONU uma provisão de uma tonelada de queijo lindenberg, criou um mosquiteiro que tinha como chamariz muito queijo lindenberg. Foi assim que o Dr. Jacques Molié erradicou a malária em Bora-bora, saiu nos principais jornais do mundo, escreveu sua tese, e com ela ganhou um...
Ignobel.
Pois é a comunidade científica achou que era piada e premiou Molié com algo que vai tornar a aposentadoria a melhor das opções. Hoje o Dr. Jacques Molié vive em sua casa de praia, em Bia Ritz, onde toma diariamente seus medicamentos contra malária.

Augusto M. Anjos
08/10/06
21:16