sábado, 4 de novembro de 2006

Serie IgNobel - Dor de Brio

( Desculpas antecipadas a todos os possíveis leitores que lutam jiu-jitsu ou tem pit-bull, às vezes temos que nos fazer dos esteriótipos para conseguir o tom que queremos no texto. Foi essa a história que me veio a mente no momento que li a reportagem da Folha a respeito do vencedor do Ignobel de medicina de 2005, conto que resolvi retomar antes de escrever sobre os vencedores de 2006. Aproveitem)



Dor de Brio

Juliano era morador do Pacaembu, lutador de jiu-jitsu, estilo Gracie, dono de pit-bull macho, Átila, o huno matador.
Átila não era um pit-bull comum, era um procriador. Era o orgulho de seu dono por ser um símbolo de pura masculinidade e virilidade. Juliano gostava de seu pit-bull pois achava-o parecido consigo. Juliano era o que a biologia chama de macho-alfa. O machão Juliano, freqüentava academias todos os dias, 2 horas de halterofilismo e 1 hora de treino de jiu-jitsu, ia a raves constantemente, nas quais ficava sem camisa para mostrar os músculos às menininhas que quisessem ver. Tomava aminoácidos, anabolizantes, anfetaminas e estaminas, os dois primeiros no primeiro ritual, os outros dois no segundo. Conseguia as pílulas com o dinheiro da procriação de Átila.
Uma vez por dia, Juliano levava Átila para passear, esse por sua vez se recusava a colocar a fucinheira. Para dizer a verdade, Juliano até preferia assim, gostava de ver as pessoas na rua intimidadas com o porte e com a severidade de seu cão.
Um dia Átila estava desanimado e isso deixava Juliano preocupado. Ele não tinha comido sua costela de boi e não tinha brincado uma vez se quer de atacar, trucidar e morder no Bob velho que Juliano não usava mais para treinar seus golpes. Ficou o dia todo deitado no canto. No dia seguinte Átila tinha uma procriação marcada e isso começava a incomodar Juliano, o ânimo de Átila não poderia afetar sua performance.
Como previsto, na hora H, Átila não estava pra conversa. Deu duas cheiradinhas no ânus da cadela, ameaçou montar atrás dela, desceu e deitou no canto. Era a gota d’água, Átila devia ter um problema sério para comprometer assim sua reputação, pensou Juliano.
Juliano pegou a parati, colocou Átila na carga da pick-up e foi correndo para o veterinário.
A recepcionista, muito gostosa, entregou a senha a Juliano e pediu que se sentasse. No banco da recepção, logo ao lado de Juliano estava uma madame com seu poodle. Juliano estava indignado como Átila nem tinha ameaçado rosnar para o cachorrinho infeliz que o apurrinhava com seu latidinho estridente e infernal.
Juliano e Átila entram no consultório; o veterinário impressiona-se com o porte do cão; pede para Juliano coloca-lo na mesa, examina-o minuciosamente. De repente Juliano repara que o veterinário deteve-se muito tempo examinando o órgão sexual de seu cachorro. “será que esse veterinário é bicha?” pensou ele, “nenhuma bicha vai fica se divertindo no pau do meu cachorro”.
O médico tira a luva e pronuncia “é, sinto informar mas seu cachorro tem um tumor testicular. É isso que vem o deixando desanimado. Infelizmente, por ser maligno, teremos que extrair os testículos dele num processo operatório o quanto antes. Caso contrario seu pit-bull poderá vir a falecer. É necessário fazer a operação antes que o tumor se generalize. Deseja fazer a remoção agora?”
Por um minuto Juliano permaneceu em silêncio. Tentou não se mostrar abalado. E agora? Sem testículos Átila deixaria de ser um macho completo e sua fonte de renda extra seria interrompida. Ele queria um cachorro capado? Mas Átila era seu cachorro afinal de contas, com ou sem testículos. Ainda seria seu Átila.
“Opera agora”.
Na sala de espera Juliano estava apreensivo. E como não poderia, a partir de hoje teria um cachorro sem saco. No balcão, com decote super sensual, a recepcionista preenchia fichas dos novos clientes. Juliano ficou uns 30 segundos com o olhar preso e perdido naqueles fartos seios que quase saltavam da blusa. Quase deu um passo a frente para chaveca-la, aí lembrou onde estava, porque estava lá e porque estivera preocupado. Sentou-se, o poodle maldito continuava com seu latidinho. A vontade de Juliano era esmagar a cabeça do cachorrinho com a mão. Ao invés disso começou a folhear o jornal, tentando esquecer tudo mais. Como seria agora? Como seria andar na rua com um pit-bull sem testículos? Como se sentiria Átila daqui para frente?
Quanto mais os pensamentos atormentavam Juliano, mais tentava se distrair folheando o periódico. Foi quando deu de cara com a reportagem; um cientista finlandês havia ganhado um prêmio de notoriedade em medicina por inventar próteses testiculares para cachorros, em três tamanhos diferentes, dizia a reportagem.
Ali estava a solução, compraria do tal doutor as maiores próteses possíveis para compensar Átila de alguma forma.
Hoje Átila e Juliano passeiam felizes nas ruas, já não é a mesma coisa, claro; as pessoas já não se intimidam mais, porém Átila consegue chamar a atenção para seu dono, à sua maneira.

08/10/06
4:43 pm
Augusto M. dos Anjos