quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Série Casa de Família - A Casa dos Oliveiras

(Recentemente participei de um concurso de contos da revista Bravo. Escrevi um conto de realismo fantástico baseado em um fato real e inusitado que aconteceu na família de um grande amigo meu. Infelizmente não ganhei o concurso, mas tive uma idéia que valeria dez concursos. Resolvi presentear meus melhores amigos, aqueles em que se frequenta a casa e que se deseja que a amizade perdure eternamente, com contos sobre suas famílias. Certa vez, li em algum lugar que se um homem tivesse 5 verdadeiros amigos durante sua vida seria um homem de sorte. Vamos torcer para que eu possa superar muitas vezes esse número; e que "A casa dos Oliveiras" seja o primeiro de um livro com muitos contos.
A meu valoroso amigo Alexandre de Oliveira Neves)



A Casa dos Oliveiras


Poderia ser uma tarde como qualquer outra na residência de praia da família Oliveira. Poderia ser uma tarde dessas em que as crianças brincam em volta da piscina esperando a hora da digestão para poder entrar na água ou ir brincar na praia. Mas a família Oliveira não é uma família qualquer, e portanto, essa não poderia ser uma tarde como qualquer outra, mas sim uma tarde de inusitadas desventuras.
A casa por si só não é uma casa comum, daquelas que comumente se vê na praia. Ela tem um estilo colonial clássico, como em estórias dos García Marques, de paredes brancas, azulejos desenhados e janelas pintadas de azul escuro, com pequenos detalhes mouros. Para sua concepção existem duas teorias:
A primeira é que o nobre casal, Sr. e Sra. Oliveira mandaram trazer a casa montada de Portugal, da praia do Porto, e de navio até as areias quentes das praias brasileiras, onde fixaram residência, fugindo da imprudência da monarquia desacreditada de Dom Carlos, que viria a morrer dois anos depois, e seguidos mais dois anos seria implantada a república. Mas a essa altura do campeonato o casal Oliveira já havia se habituado as quentes águas do Atlântico do lado de cá.
A outra teoria é que a casa tinha sido a primeira construída na região, numa época em que não havia nem cidade, pelo avô do Sr. Oliveira, o último califa de Portugal, que tinha mantido seu califado a muito custo por quinhentos anos após a formação do Estado Português e que por essa razão de árabe só tinha mesmo era o título. O avô do Sr. Oliveira, Dom Afonso Miguel Abdalla de Oliveira, perdeu seu califado em Faro para a intrépida investida das tropas napoleônicas, mais precisamente o terceiro batalhão de infantaria de Jean Jacques Lacroix, que se desgarrou da tropa e com muito faro achou o secreto califado. Dom Afonso segue então para o Brasil e monta, em terras paulistas, um califado como o seu e que por já estar acostumado com o segredo da existência, permaneceu lá, quietinho em sua “casa de praia”. E assim fizeram as futuras gerações até que a civilização cercasse o místico terreno dos Oliveiras. E por mais absurdas que as duas hipóteses possam parecer, fica a crivo do leitor eleger a que lhe for mais plausível, já que nada consta nos autos e somente isso é o que o povo conta.
Naturalmente a casa tem um grande jardim de arbustos frutíferos e ervas medicinais. O terreno é todo cercado, além dos altos muros senhoris, por uma cerca viva de oliveiras que balançam suas folhas ao vento; no portão principal, as duas mais frondosas fazem festa aos visitantes que chegam, pois se há algo que os Oliveiras gostam, tenha isso origem moura ou não, é de festas, bebidas e convidados.
E agora que já descrevi a casa, basta apresentar os integrantes da família, presentes naquela tarde de curiosos acontecimentos. O grande Sr. Oliveira, até então supra citado, leva o mesmo nome do avô, suposto califa de Faro, Seu Afonso Miguel de Oliveira Neto, foi jornalista no diário local e agora aposentado, se dedica ao nobre ofício de escritor. A grande Sra. Oliveira, Dona Gertrudes de Carvalho e Oliveira, sempre foi mulher forte e geniosa, dotada de grande ímpeto e perseverança, razão coincidente com sua descendência de duas grandes árvores de raízes firmes, foi mãe dedicada e é uma avó amorosa. Os dois filhos do casal Oliveira, Afonso, o mais velho, e Miguel, o mais novo. Empresário e bicheiro. Com suas respectivas esposas, Cláudia e Vânia.
Os filhos de Afonso são Henrique Oliveira, 14 anos, o gêniozinho da família que seguirá os passos do pai e que para passar o tempo vê os altos e baixos da bolsa fazendo cálculos matemáticos para o melhor lucro; Daniel, 12 anos, o filho do meio, adora fingir dor de barriga para tomar o chá de erva cidreira da vovó e brincar com seus amigos imaginários; Vitor, ou Vitinho, 8 anos, o caçulinha da família, um garotinho mimado e espirituoso, bem humorado e a alegria de toda a família, como todo o caçula.
Miguel tem dois filhos, Douglas e Viviane. Douglas, 12 anos, mais introspectivo e Viviane, 9 anos, mais sociável. Tão sociável que enquanto seu irmão preferia brincar sozinho, Viviane trouxe uma amiguinha de companhia, Giselle. Giselle, Vitor e Viviane costumam brincar muito juntos.
A tarde estava ensolarada. A família fazia um churrasco à beira da piscina. Henrique calculava a 15ª razão do pi e via sua compatibilidade com a lógica da cabala. Vitinho e Giselle estavam escondidos no porão da piscina, próximos a máquina, enquanto Viviane contava até 100 no esconde-esconde. Os homens ainda estavam a comer carne e beber cerveja, as mulheres lavavam a louça enquanto jogavam conversa fora. Douglas brincava sozinho ao pé da sacada com um cubo mágico que achava dificuldade em resolver. O Sr. Oliveira, sentado em frente a sua Olivetti, tentava escrever um conto sobre sua família numa tarde qualquer. E Daniel, bem, Daniel acabava de tomar o chá de erva que tinha feito sua vó fazer e foi brincar na praia, escapulindo pela porta dos fundos sorrateiramente enquanto ninguém via.
Daniel estava sentado na areia olhando para o mar que molhava seus pés num vai e vem da maré, quando viu uma silhueta a uns dois ou três metros. Resolveu puxar conversa e como estava confortavelmente sentado, gritava para sua amiga um pouco distante. Convidou-a para ir até a casa brincar no jardim. Vendo que esta não respondia se aproximou.
Nesse meio tempo, Douglas quase conseguira resolver uma face do cubo, mas botou tudo a perder com dois movimentos precipitados. O Sr. Oliveira, aparado em frente a sua Olivetti, parecia não saber se decidir qual das possíveis lendas de sua origem lhe parecia um recurso melhor para um conto de realismo fantástico. E Vitinho e Giselle, cansados de esperar Viviane que já tinha revirado toda casa a procura dos dois, resolveram aproveitar o ensejo do porão para brincar de outra coisa bem mais interessante, brincar de médico.
Daniel voltava a casa com sua amiga de praia, apelidada de Lunática, já que até agora não havia pronunciado palavra e alguma coisa em sua aparência lembrava a Daniel o solo lunar. Entraram sorrateiramente, da mesma forma que havia saído, e subiram para o quarto da avó, aquele com sacada, para que ninguém nota-se a presença intrusa de Lunática.
Tudo ia bem e perfeitamente normal naquela tarde de sábado até que, vindo de lugar nenhum, como que caído do céu, um pedregulho acerta em cheio a cabeça de Douglas. Aos gritos de desespero do garoto e o rosto ensangüentado, a família se via alvoroçada e estupefata, sem saber direito como seria possível que uma pedra daquele tamanho tivesse simplesmente caído do céu.
Corre a família Oliveira ao hospital, onde agora aguardavam ansiosamente na sala de espera, enquanto Douglas levava 7 pontos na cabeça. O sentimento de culpa era geral. Como bons católicos, cada membro da família tinha atribuído a si uma parcela de mea culpa do estranho incidente. Dona Gertrudes se penitenciava, achando que era um castigo de Deus pela sua falsa idolatria, já que certa vez, na dúvida da verdadeira origem de seu marido, achou que não fazia mal nenhum se rezasse seu pai-nosso virada para Meca, só para garantir. Henrique achou que tinha conjurado um meteoro ao decifrar os estranhos teoremas hebraicos. Vitinho, acostumado desde muito cedo com a culpa católica e com a onisciência divina, sentiu-se chateado por Deus ter punido seu primo por ter visto ele e Giselle “fazendo coisa feia” como dizia sua avó. Miguel se lastimava por ter comido carne na última sexta-feira santa. Viviane se fez jurar nunca mais blasfemar para nada, pois irritada com o esconde-esconde ela tinha gritado, justamente no momento do ocorrido, para todos ouvirem em alto e bom tom que não acharia Vitinho e Giselle nem que chovesse pedra. O Seu Oliveira resolveu que não escreveria mais realismo fantástico, pois no seu conto pedras caiam do céu.
Todos tinham inventado um motivo para si. Todos menos Daniel. Ele viria confessar dez anos depois num almoço de páscoa que o chá da vovó não fazia lá tão bem para a cabeça como fazia para o estômago, pois naquela fatídica tarde não quis dizer a ninguém que Lunática, sua amiga da praia, era uma pedra lunar que segundo ele podia falar e que lhe disse que sabia voar, foi quando Daniel a jogou janela a fora, esperando que voltasse para casa bem.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

I

A vida é como um rio turbulento
Que nunca para de jorrar
Que jorra, jorra sem parar
É fluído, é instante, é momento
Incessante, passageiro
O mesmo de antes
E novo por inteiro
E as pedras que do leito esperam eternamente vendo o rio passar, fluir, jorrar, sem nunca esgotar, parecendo não sair do lugar.
Não quero ser uma pedra que vê a vida passar a cada instante sem sair do lugar.
Quero ser a gota que desce a corredeira que flui com a corrente da vida a morrer na imensidão do mar.


Augusto M. dos Anjos
25/02/06
8:10pm

PS. concebido há 3h embaixo de uma cachoeira

Rito de passagem

(toda sociedade tem um rito de passagem para a vida adulta; desde a primitiva até a mais avançada. Creio e sinto que na sociedade moderna, como outros ritos, esse se constitui em sofrimento e perda. O caráter individualista da sociedade capitalista é nessa fase finalmente concretizado. Cada um por si e Deus contra todos , como manda o calvinismo cínico impregnado em cada um de nós de criação ocidentalmente globalizada. Em pensar que um dia o planeta só teria ocidente. Esse dia chegou.)

Nunca tive banda
Nem de rock, nem de samba
Juventude degradada

Nunca tive namorada
Pra suprir minha carência
Fui alma rechaçada
Em eterna clemência

A vida adulta (agora) é deprimente
Pois traz outra perda inerente
Quando os amigos se tornam colegas
A palavra solidão soa até piegas


Augusto M. dos Anjos
25/01/06
1:42 am

Refração sem cor

Quando vejo as cicatrizes, percebo
Aquilo que outrora não concebia
E que agora, já me alienia
É do mundo que, o que sinto e penso, recebo

As cicatrizes?
Recalques de covardia
Recalques da rebeldia,
Da vergonha, do medo
E nunca da alegria

Feridas indissociáveis
Desse mundo sensível
Incuráveis
Visão coberta de cinza e corpo perecível

Só resta dor e solidão
Num mundo sem amor e paixão
E uma vida sem alento
O corpo é só o remendo
Haja vista as cicatrizes
Dessa vida sem matizes


Augusto M. dos Anjos
30/06/04
11:55 pm

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Hedonismo – Mito ou Lenda

(Esse poema foi criado no 3º semestre da ESPM para uma aula de mershandising. O objetivo era fazer um paralelo entre a matéria e o livro do filósofo francês André Comte Sponville, Felicidade Desesperadamente. De alguma maneira conseguimos mostrar pela teoria do filósofo que as técnicas da aula causam infelicidade no consumidor. Segue o poema, e para quem quiser recomendo a leitura do livro.)


Eis aqui uma grande questão
Se algum dia existiu hedonismo ou não
Pois uma coisa, há de concordar que é fato
Se a felicidade existe, ela só pode ser em ato

Dizem do homem que procura proteger sua natureza
Mas dissso, meu amigo, já não tenho tanta certeza
O que me diz daquele que sempre quer a vida mais ativa
Que não consegue jamais se desfazer de expectativa

Expectativa, não há maior tormento
É a busca pelo objeto amado
Que só causa sofrimento
E o encontro idealizado
Seguido de um profundo enfado

Sponville errou quanto a expectativa
Pois ela vem do antro social
De forma a jamais ser deliberativa
E esta é a origem de todo mal

Ainda que tivesse alguma liberdade
O homem escolheria a infelicidade
Pra que aproveitar o momento
Se posso me empanturrar com alento

Desesperadamente?
Só se for a espera da morte
Que com alguma sorte
Virá rapidamente


Augusto M. Anjos
05/10/04
23:25