terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os Clowns daqui choram como os de lá

Estranho transeunte entra no ônibus. Ele porta uma sacola. O que terá lá dentro? Balas. Ele traz balas. Veste uma camisa xadrez e uma calça social, usa óculos e cabelinho arrumado. Junto com tudo porta uma aparência cheia de trejeitos inseguros dignos de pena.

Distribui as balas entre os passageiros fazendo uso de um português impecável. Seus modos respeitam a boa educação ditada pelos manuais de etiqueta inglesa. Bom dia. Queira segurar, por favor. Um minuto de sua atenção. Segure aqui por favor. A mão meio tremula e vacilante entrega três pacotes de jujubas de menta.

Ao entregar tudo começa seu discurso. Algo como Queriam me dar licença e Desculpem atrapalhar a viagem de vocês. Mas todos temos, e devemos, honrar nossos compromissos. E como Cidadão responsável e desempregado que sou, estou aqui humildemente trabalhando.

Ainda completa depois de algumas tabelas de preço decoradas, para aqueles que se compadecerem posteriormente, um website por onde possam fazer seus donativos. E saiu recolhendo as moedas daqueles que se tornaram persuadidos por seu nobre discurso.

Por um breve momento tive empatia pela figura. Percebi a dificuldade que alguém de provável classe média, que se via agora na rua da amargura, a se expor, comprometendo a sua própria dignidade, algo muito caro e importante para alguém que não tem que lutar pra sobreviver. Foi quando me dei conta de sua força, da força do personagem. E por um momento duvidei, achando que talvez tudo não passasse de um ato muito bem encenado, um artifício muito sagaz, de uma mente tão inteligente e criativa que merece respeito.

E pensando muito sobre isso e observando a figura a minha frente percebi mais uma vez: é totalmente encenado, mas não é consciente. Houvera talvez um tempo em que a dignidade lutou contra a realidade e ocasionou tamanha insegurança a ponto de criar uma persona. Com o passar do tempo, e difícil estimar quanto e quando aconteceu de fato, sua insegurança se travestiu numa máscara muito conveniente para a situação e a partir dali não era mais um cara inseguro a pedir misericórdia e sim um clown que inspirava o sentimento misto de compaixão e pena, também não sendo muito possível distinguir um limiar claro. Uma vez transformado seu inconsciente no artista sagaz, que usava de palco aquele ônibus, e que deixava de existir assim que descesse porta afora dizendo sua enunciação final, ele conseguia um ganha-pão.

E eu ali no ponto como arlequim vencido tentava entender toda a cena, fazendo pensar, existirá mesmo um palco social?

Pierrots uni-vos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Série Casa de Famíla - Prana

Prana

Se você algum dia tivesse a oportunidade de visitar a família Prana, perceberia que esta não é uma família como outra qualquer. A família Prana se mantém sempre em um estado de espírito elevado de consciência humana, buscando a iluminação de suas mentes por práticas distintas como a yoga, o vegetarianismo e os esportes aquáticos.

Se você por curiosidade pudesse visitar a família Prana perceberia que um melhor vocábulo aplicado a esse léxico seria clã Prana. Isso porque o clã Prana constitui na verdade três famílias em uma, através de um convívio intimo de anos e gerações: respectivamente os Prana, propriamente dito, os Pacholí, e os Kundalini. E é claro o Sr. Pereira. O senhor Pereira é um gay radio jornalista, corintiano roxo e bom futebolista, que convive com os Prana desde a infância, mais precisamente com Daniel Prana, o filho mais velho, quando moravam no mesmo condomínio. Os Pacholí são amigos de faculdade dos pais de Daniel e Isabela Prana, e seus filhos Danilo e Gabriel Pacholí cresceram juntos, brincaram juntos e juntos foram expulsos da catequese. Os Kundalini são os primos dos Pacholí, Juliana e Edgar. Mas para que essa história não fique mais confusa do que já está vamos nos concentrar nos Prana, propriamente dito.

Ernesto Prana é o pai, dedicado empresário e pai convicto, é o co-protagonista da história que vou contar. Ernesto é casado com Marina Silva Prana, fisioterapeuta. Eles se conheceram no Campus da Universidade de São Paulo. Ernesto andava de bicicleta depois da aula de história e deu carona na garupa para a caloura que estava perdida em frente à praça do relógio. Ali começou o namoro que se estenderia pelos anos de faculdade, culminando num casamento e numa família com mais dois integrantes, Isabela e Daniel. Isabela nasceu com um lápis na mão e logo que saiu fez questão de desenhar o próprio parto. Ela e o desenho são inseparáveis. Quando criança pintava todas as paredes da casa com giz de cera. Hoje é uma designer famosa e toca em paralelo uma vida de artista plástica. Daniel é publicitário e professor de yoga. Daniel não come carne, diz que isso atrapalha os exercícios de yoga para atingir o Samadhi, e a história que vou contar é de como esse vegetarianismo começou.

Sabe, o vegetarianismo é um processo: primeiro se corta da dieta a carne vermelha, depois de alguns anos o frango e depois o peixe. Nossa história se passa no último estágio desse processo, quando Daniel iria parar de comer peixe e o grande acontecimento que o levaria a isso.

Daniel e seu pai Ernesto tinham uma ligação muito forte, quase mística. Foi pela influência do pai vegetariano que Daniel parou de comer carne. Daniel partiria para uma viagem de intercâmbio e passaria 6 meses na Nova Zelândia, bem longe de usa família. Mas ainda há quilômetros de distância a ligação deles continuava e Ernesto conseguia saber quando algo de muito importante ou inusitado acontecia com seu filho.

Pois bem, era uma tarde de domingo e Daniel ia sair com o pessoal do albergue para fazer uma viagem turística numa grande montanha nevada. Tinham almoçado numa lanchonete e Daniel teve que se contentar com um peixe grelhado ao molho de curry verde e barbecue, a única opção do cardápio que estava dentro da sua dieta. Tinham começado a longa caminhada para conhecer uma geleira que nunca derretia, quando de repente uma dor de barriga fulminante acometeu Daniel. Seu estomago roncava como que com fome só que de um jeito diferente. Roncava como nunca tinha ouvido antes e sentia não aquele vazio doloroso da fome, senão um estrondo grave como um tambor de guerra. Daniel disse ao instrutor: “Acho que preciso ir ao banheiro”. E o instrutor o responde: “Não tem como. O banheiro mais próximo fica a 10 km daqui. Você vai ter que segurar”. Aquilo era preocupante. Daniel não se agüentava dentro de si e começava a andar mais lento, mais apertado, mais rebolado, quase numa marcha atlética. Enquanto isso, do outro lado do mundo seu pai se revirava no sono, suando frio, sonhando com algo muito incomodo. Daniel estava em estado crítico, já tinha ficado por último na fila para que na primeira oportunidade pudesse devolver a natureza aquele maldito peixe com curry. Chegaram à geleira e Daniel não conseguia nem mais ouvir o discurso ‘National Geografic’ do instrutor sobre a sagrada, milenar e inviolável geleira, intocada pelo homem, pura e branca. Daniel tinha medo de peidar sem que isso fosse acabar num catastrófico desastre. Mais uma vez seu pai, do outro lado do mundo, começa a se revirar na cama. Daniel não podia mais suportar. Esperou seu grupo se afastar. Olhou em volta. Não vendo ninguém arria as calças e começa. O momento tão esperado finalmente tinha chego, não dava mais pra se conter, era tão aliviante que Daniel não podia conter sua felicidade “AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH”. Quase chorou de tão feliz que estava. “Mas e agora? Como vou limpar?” Daniel põe a mão na testa tentando achar uma solução. E lá estava ela bem na sua testa. A mão com luvas. Luvas aveludadas, macias e (depois disso) descartáveis.

Do outro lado do mundo Ernesto acorda desesperado. “Marina acorda!! Marina acorda!” “Que foi, Ernesto?” “Eu preciso comer bacalhau.” “O QUÊ?”

“Eu preciso comer bacalhau agora.” “São três horas da manhã Ernesto! Onde é que você vai encontrar bacalhau?” “No posto 56”.

Daniel, de calças arriadas, numa das cenas mais inesquecíveis da sua vida, limpando a bunda com a luva aveludada vê um flash e imagina o pior. Sim, o pior tinha acontecido: Um grupo de japoneses alucinados tiravam fotos sem parar do turista que do outro lado da geleira tinha cagado na paisagem de 5 milhões de anos, intocada pelo homem até então, e que ainda de calças arriadas limpava a bunda com a própria luva.

Sem jeito, e sem muito o que fazer naquela situação, Daniel sorri e acena com a outra mão para as câmeras como se fizesse pose, jurando que nunca mais na vida comeria peixe, enquanto que do outro lado do oceano seu pai andava 56 quilômetros de carro só pra matar a saudades de comer bacalhau.

É o universo é sábio: o que tira de um dá ao outro.

Augusto M. dos Anjos

29/09/08

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Série Casa de Família

A Casa de Brigadeiro



Alberto Vidaboa passou um ensinamento importante pra seu filho Leonardo, que esse certamente levará por muito tempo: “viver não é fácil, filho. Tem muita pedra no caminho pra contornar. Mas no fim das contas é bom pra caralho.”. É, Leonardo bem o sabia.
A história de Leonardo já começa em provação no ato do nascimento. Alberto Gonçalves Vidaboa e Luciana Vettri Vidaboa não pretendiam ter um filho tão cedo. Ambos eram estudantes de medicina na Federal de Uberaba. Para sustentar o filho, Alberto trocou os bares do Centro Acadêmico por uma barraquinha de cachorro-quente. Estudava de noite e de dia corria atrás do ganha pão e da fralda do menino. Provavelmente a determinação empregada nessa época da vida levou a luta como um hábito incorporado da família.
Com doze anos Leonardo vivia na casa de dois respeitáveis cirurgiões da região mogiana do estado de São Paulo. Uma casa cheia de riqueza e felicidade. Leonardo tinha duas irmãs. Paula, a do meio, puxará bem o pai e desde cedo se mostrou estudiosa, organizada, determinada e pragmática. Camila, a menorzinha, puxava o irmão e a mãe. Esses por sua vez sempre demonstraram um amor pelo perigo, pela boemia, pela impulsividade e por uma alegria contagiante; ainda que por enquanto Leonardo não tenha exercido na plenitude essas qualidades.
Leonardo faz hipismo. Seu pai é seu treinador. Ele cai do cavalo. A dor é avassaladora.
“ Você caiu? Pois LEVANTE. Vai deixar esse bicho te vencer!” Leonardo levanta, ainda meio com dor sobe no cavalo e volta a treinar. Não ousou responder ao pai. Manteve o silêncio resignado. No fundo sabia o quanto aquilo era importante. Faltavam 2 dias para a competição. Leonardo treina exaustivamente. Depois de 6 horas ele e o cavalo são um só. Um majestoso centauro que salta impiedosamente todo obstáculo no seu caminho. Até que a parte homem cede e desfalece no chão de cansaço e desnutrição enquanto a parte bicho continua a cavalgada até o fim da prova. A vida parece drasticamente desafiante. Comportamentos como esse condizem com a personalidade e a psique de Leonardo, um garoto hiperativo.
Com 16 essa hiperatividade se une ao ímpeto juvenil. Leonardo tem uma moto e costuma sair com seus amigos para praticar motocross sem capacete. Joga vídeo-game 72 horas seguidas até conseguir finalizar complexos jogos de RPG. Desmonta e remonta seu computador inúmeras vezes só pela gana de se aprofundar ao máximo em um assunto. E apesar disso procura expandir seus horizontes tentando conhecer um pouco de tudo, física, matemática, história, filosofia, arte. Essa gana de viver lhe é implícita, é sua essência. E o desafio é como o combustível que o move, ainda que esse desafio seja subverter a tradição familiar. Na época do vestibular Leonardo resolve boicotar a prova para a faculdade de medicina em Uberaba e presta Publicidade em São Paulo. O simples fato de contradizer a ordem estabelecida já o excita. Ele sabia que estava comprando uma bela briga com os pais e ainda assim o fez. Revolucionário de plantão, Leonardo, apesar dos pesares, sempre foi o mais carinhoso de toda família e seu carinho transborda sua alegria de viver em sorrisos constantes que contagiam a todos. Afinal “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. Mais uma batalha vencida e a vida vai se estabilizando novamente num céu de algodão doce. Leonardo tem um apê alugado próximo a faculdade em São Paulo e no último fim de semana de cada mês volta para o interior para ver a família e a namorada que tanto estima. A doce Laura Vega, estudante de artes cênicas. A vida parece perfeita. Mal sabia Leonardo que o verdadeiro desafio estava por vir.
Era uma tarde ensolarada de domingo e depois de assar um bolo de fubá e passar um café, Luciana sorvia a bebida quente na varanda olhando fixamente para o céu e apenas aproveitando o passar do tempo sereno. Leonardo deita ao seu lado, com a cabeça no seu colo. Eles conversam suavemente pela tarde caindo sobre bobagens corriqueiras e tão agradáveis de se papear. O sentimento no ar é de uma sublime despedida, ainda que não houvesse motivo para tal. Ambos aproveitavam o prazer da companhia um do outro naquela tarde como se o tempo lhes escorresse pelas mãos e tivessem a certeza de que aquele momento seria inesquecível, não se repetindo jamais.
Na segunda a noite, já em São Paulo, Leonardo recebe uma ligação. A mulher no outro lado da linha parecia pesarosa ao falar. Luciana tivera uma parada cardíaca no vestiário da ante-sala de operação. Não foi socorrida a tempo e apesar de terem-lhe salvado a vida, ela entrou num estado vegetativo devido a lesões no tecido cerebral por falta de oxigenação. Não havia volta. Não havia esperanças de melhora. Ela se fora para todo sempre ainda que continuasse lá. Não era mais ela. Era um outro alguém com o rosto dela, alheio a tudo que o cercava.
Como sobreviver a essa agonia. Como curar essa dor aguda e constante. Essa melancolia que pesa no corpo. Esse vazio. Essa falta. Já não há desafios que valham a pena. Já não há porque lutar. Já não há porque viver e sim apenas se deixar levar, ao leo pela existência fatídica. Claro que existe ainda o apoio daqueles que ficam e nos amam. O valente e determinado Alberto Vidaboa devia agora se mostrar mais forte do que nunca. Devia suprir ambos os papéis, materno e paterno, para seus três filhos e ajuda-los a superar a dor latente da perda. E Laura também estava lá dando seu carinho e consolo. Nenhuma outra faria igual por ele com tamanha dedicação em fazer do seu relacionamento um ponto de partida para uma nova fase. Mas era tarde e Leonardo já havia se perdido. Perdeu seu foco. Se entregou, com a mesma determinação que cavalgava, aos prazeres mais boêmios, tentando suprir a dor com um hedonismo desenfreado. Leonardo Vidaboa viveria custe o que custar e doa a quem doer. Seu namoro com Laura já não funcionava, já que havia ali um certo desapego, uma despreocupação sutil e por conseguinte um distanciamento progressivo. Leonardo ainda era carinhoso, gentil e sorridente, transbordando alegria, como sempre fora. No entanto estava sempre distante, sempre num sorriso quase ausente. O namoro por fim chegou ao seu desfecho. E agora Leonardo podia se entregar totalmente a vida e vive-la sem culpa e sem pecado pois não havia a quem responder. Ele era totalmente livre. Livre para o que der e vier. Para cada bar e cada festa e cada samba de roda e cada lira dessa grande metrópole.
E foi justamente numa dessas festas que Leonardo finalmente se reencontrou. Ou melhor encontrou Karina. Karina, morena de 1,75 bem torneada, era independente, sofisticada, hedonista como nosso amigo, no entanto bem sucedida executiva e preocupada com a carreira. Às vezes excessivamente preocupada.
Era um fim de festa no edifício Copan, Leonardo vê Karina num canto. De repente Leonardo só vê Karina e mais nada. Ele a puxa pra dançar. Um passinho pra cá, um passinho pra lá, uma conversa ao pé da orelha, uma longa conversa ao pé da orelha, até que finalmente um beijo. Não simplesmente um beijo, mas um momento de êxtase único e incomparável, o encaixe perfeito entre lábios, bocas que casam com primazia e que a cada movimento se complementam. Leonardo abri um sorriso de orelha a orelha, como uma criança que acaba de ganhar um doce ou um pensionista com um bilhete premiado da loteria acumulada. Karina flagra e justamente nesse momento seu coração palpita de emoção. E de um sorriso farto começa uma história de amor e devoção. Leonardo se reforma, só a olhos para ela, a vida tem novamente sentido e ele finalmente pode voltar a ser um Vidaboa.
Karina mora na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, num apartamento modesto próximo ao metrô. E é assim que Leonardo ganha uma segunda casa. Sua casa de brigadeiro, onde as noites são doces e suaves, onde a vida flui com alegria sutil que emana em perfume de flores pelo ar. É terça-feira, Leonardo compra um vaso. Um belo vaso e coloca na cabeceira da cama: “Esse é o nosso amor. Aqui nós o vamos cultivar. Essa é uma flor para você minha flor, que colocarei aqui e que a cada nova terça-feira hei de trocar.”
Mas nem tudo na vida é um mar de flores. Karina tinha sido muito calejada por antigos relacionamentos e sofrerá muito. Assim mantinha sempre um pé atrás e com o histórico de nosso herói, essa coisa de confiança não ia lá muito bem. A bem da verdade que ninguém muda do dia para noite e, apesar de Leonardo só ter olhos para Karina e a venerar em sua beleza e plenitude, ele continua por vezes distante e despreocupado. Não de propósito mas por hábito. De maneira que por mais que a amasse imensamente não pode cumprir sua promessa e esqueceu de flores novas na terça-feira ou uma conversa de desabafo de vez em quando. A desconfiança de Karina e o An passan de Leonardo foram corroendo a relação. Até que Karina preferiu estar sozinha a ter alguém com quem não podia sempre contar.
Mas a vida é assim, vivemos em momentos diferentes uns dos outros e nem sempre estamos prontos e disponíveis para qualquer situação. Às vezes precisamos evoluir e para evoluir é preciso um safanão da vida, é preciso perder algo para ganhar outra coisa por outro lado. Leonardo Vidaboa sentiu profundamente o fim desse namoro e percebeu o quanto a amava, o quanto havia se perdido e o quanto ela havia lhe salvado. Leonardo se propôs então a deixar na porta da casa de brigadeiro uma flor a cada nova terça-feira. E a flor ia do capacho para o lixo. E na próxima terça-feira outra flor.
Foram 4 meses até que a flor fosse da soleira da porta para dentro do vaso na cabeceira. E ainda hoje está lá, a flor de laranjeira no vaso da cabeceira da casa de brigadeiro. E a casa pode ser novamente completa e plena.








Augusto Moreno dos Anjos
30/08/08


domingo, 18 de maio de 2008

Ensaio sobre o Fim

O fim é amargo como café.
De um amargor suave que permanece na boca por um tempo. O fim tem essência, tem corpo, tem aroma. O fim é puro e sem açúcar.
Mas assim como café, também há no fim propriedades revigorantes, que quebram de leve a sonolência e que nos deixa naquele estado semi-acordado de uma sesta não durmida.
O fim nos faz pensar. No que foi, no que há, no que será. O fim nos faz esquecer. E esquecendo, continuamos a viver para um dia lembrar.

Fim.

Augusto M Anjos
17/05/08
16:53

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sadia? Quem sabe

Notícia da Folha de São Paulo comenta nesta terça-feira que dois pedaços de pizza congelada, segundo pesquisa realizada pelo IDEC, contem a mesma quantidade de gordura e sódio que 20 pratos de filé de frango com brócolis, arroz, feijão e salada ou 6,5 pratos de filé à milanesa com arroz, feijão e salada de maionese. Realmente espantoso e difícil de acreditar em tão estrondosos números dessa pesquisa, e não querendo mas já fazendo o papel de advogado do diabo, repitamos a informação para que ao leitor atento perceba através do tom o grau de veracidade da informação: são 20 pratos de filé de frango com brócolis, arroz, feijão e salada ou 6,5 pratos de filé à milanesa com arroz, feijão e salada de maionese. Realmente espantoso. O que tem a dizer sobre isso os produtores de frango, os produtores de brócolis e os hortifrutigranjeiros?
Não que minha notável estima pela culinária italiana, tão apreciada por nós paulistanos, tenha induzido meu pensamento ou suscitado suspeitas. Mas algo cheira mal nessa cozinha.

Cidadania e Oportunidade x Caridade

É de se esperar que o PT aja como um partido de esquerda e faça medidas e ações que beneficiem a parcela mais pobre da população. No entanto, espera-se também que não haja amadorismo social ou desperdício das reservas dos cofres públicos. O Programa Bolsa Família é nitidamente um desperdício de verba assistencialista e filantrópico sem nenhum fim em si mesmo. Nada contra a filantropia, mas um governo que se preze, que planeja o futuro da nação, e busca um desenvolvimento igualitário e humano deve ser tudo, menos assistencialista e filantrópico. Ele deve se preocupar sim com a desigualdade social e com a fome e com o baixo IDH, ainda mais sendo de esquerda, pois é isso que se espera dele e que certamente por mais social democrata que sejam os nomes, todos sabemos muito bem que a esse respeito muito pouco será feito.
Em contra partida, o novo programa social do Governo Lula é de uma excelência ímpar, na medida que age sobre as 16 regiões do pais com menor IDH, viabilizando a formação de uma infra-estrutura capaz de trazer mais educação e qualidade de vida, pela construção de estradas, ampliação de rede elétrica, programa de desenvolvimento de agricultura familiar entre outros. É realmente uma pena que essas ações tenham começado a ganhar investimento pesado apenas agora em ano eleitoral, afim de favorecer seus coleguinhas e aliados.
E enquanto isso nosso presidente volta a defender a menina de seus olhos, o programa Bolsa Família, dizendo que não tem pressa para dar fim a esta calamidade desenvolvimentista. Isso denota mais uma vez, que nosso excelentíssimo presidente é muito bem assessorado, mas que de política e, diria até, de socialismo, não entende nada. Mas o que se poderia esperar de alguém que acha que a situação favorável da dívida brasileira é obra divina. Depois dessa Deus salve Guido Mantega, e mais importante, lhe dê paciência.


Augusto Moreno dos Anjos
26/02/08

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Maçonicamente inviável

Acorda atrasado de manhã, põe a primeira roupa que vê pela frente, uma calça jeans punk toda rasgada e uma dessas camisetas da moda que parece do avesso. Sem tempo para se pentear pega alguma coisa para comer no caminho, sai correndo até o metrô.
Despenteado e esbaforido chega ao consultório (psiquiatria), onde a recepcionista o pede que aguarde. Ao entrar na sala do medico se em frente a um estereotipo psiquiátrico, semi-cavanhaque, grisalho, com entradas na testa tão salientes que via-se o cabelo que despontava da nuca ao côco da cabeça. Era praticamente Billy Crystal em “a Máfia volta ao divã”. O médico olha ressabiado a estranha indumentária do figura:
- Bom dia.
- Bom dia, doutor.
Ele aponta para que se sente.
- Você tem algum antecedente psiquiátrico?
- Não que eu saiba
- Em que posso ajuda-lo?
- Estou a ponto de entrar em uma Instituição e me foi solicitado um atestado de sanidade mental, do qual dependerá o meu ingresso.
- Entendendo. E Qual seria essa Instituição? – estranha o doutor o procedimento pouco usual.
- Isso eu não posso lhe dizer.
- Por que não? – pergunta ele, agora realmente encafifado.
- Porque arracariam-me a língua e cortariam-me a garganta.
- E como eles saberiam que me contou
- Eles sabem
- Eles sabem? Sua família tem histórico psiquiátrico, meu rapaz?
- Meu bisavô é o poeta Augusto dos Anjos
- Era?
- Não, é!
- Aham
- E meu primo em 2º grau era psicopata. Matou metade da família.
O doutor aperta o interfone:
- Enfermeira, queira me ajudar aqui, sim.
- Então, doutor, quando eu posso ter esse atestado?
Em tom conciliatório:
- Ora assim que eu assinar esse papel aqui. Só gostaria que o senhor retirasse sua via em outro estabelecimento em que clinico.
- Qual, doutor?
- No Charcot, a enfermeira vai lhe acompanhar até o transporte adequado e temos uma vestimenta melhor para você também. Tenha uma boa vida meu senhor.
- O senhor também, doutor. Viva a revolução!



Augusto M. dos Anjos

Nascimento de Vênus

Eis que da espuma do mar
Nasce com glamour ao meu olhar
Tão bela, tão singela

Ela que dança a beira da praia
Tocando com os dedos do pé a areia fofa e molhada

Com a água a molhar seus tornozelos
Andando com graça, quase a rebolar
Sambando com ginga encima da água como a deusa que é

Ouvindo um seilá-oquê bom de mais no ipod
Que deixa ela assim de olhinho fechado para todo mundo ver

Ela sabe que a olham
Exerce todo o seu poder

Ela sabe.


Augusto M. dos Anjos
01/01/08
16:40

Perspectiva de Morte Poliana

Ao olhar para um céu estrelado o vemos? Vemos o passado. Onde grandes brilharam por muito tempo e sua luz, aqueceu a tantos e brilhou tão longe que, hoje, mesmo depois de sua morte, ainda podemos vê-los.
Quero também, ao chegar a minha hora, poder olhar a morte como que olha o céu; e ter a certeza de que brilhei para muitos, por muito tempo, até que um observador de um tempo além, possa olhar com admiração aquilo que fui já a milhões de anos.
Apenas solene como o Sol.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Lembrança

Sentado no parque a admirar a natureza. Olha para o lado e o que vê? Um busto, daqueles em bronze ou chumbo esverdeado. Um rosto. Nada reconhecível, nada famoso, nada familiar.
Logo abaixo, um espaço, vazio e sujo, um símbolo do vandalismo daqueles que lhe roubaram a placa memorial para derreter e fazer dinheiro.
Eis que olha para o busto, e o busto lhe olha:
- Triste fim esse de arrancarem-lhe a memória. Não só morto, mas esquecido, esquecido e presente. Eternamente lembrado no esquecimento.
Eis que o busto responde:
- Antes isso que nada. Antes um rosto sem nome que um nome sem rosto. Antes um “Fulano Quem?” E você terá um busto como eu?
- Só o tempo e a sorte hão de dizer. Aqui reconhecimento só com a morte.
- Por vezes nem com ela.




Augusto M. Anjos