Essa é uma daquelas histórias que não tenho orgulho de contar. Tudo começou com uma bunda. Sim, uma bunda, enorme e redonda bunda a caminhar pelo escritório. Quando ela andava era só bunda, indo ou vindo só uma coisa podia ser vista: BUNDA.
Caminhava devagar, com seu passo manso a rebolar o quadril, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, nádega sobe, nádega desce, nádega sobe, nádega desce, e eu, enlouqueço.
Era o primeiro dia dela de trabalho, ou seria o meu primeiro de existência? Oi, meu nome é Jorge, prazer. Oi meu nome é....
Quem disse que eu ouvi, pra mim ela não tinha nome. Pra mim ela era uma bunda e nada mais. Não consegui mais trabalhar durante o resto do dia. Levantava os olhos da tela do computador a escrutinar todos os cantos da redação a procura de nada menos que uma bunda, não qualquer uma, mas A bunda. Grande, gigantesca, colossal, cada nádega apresentava a mais perfeita circunferência que nem mesmo Gioto seria capaz de fazer, e eu; eu queria me perder no centro delas num deleite sem fim de vai e vem animalesco e voraz, só pra ouvir aquela bunda gemendo.
6 horas. Graças a deus o dia acabou. Apesar disso sei que preciso me demorar alguns minutos a mais sentado em minha cadeira, esperando a bunda me sair da cabeça e poder assim me levantar sem maiores constrangimentos.
Segundo dia dela, ao que me parece a bunda está ligeiramente maior e ainda mais deliciosa. As horas passam num intervalo entre o prazer e a tortura. Se ao menos pudesse ter aquela bunda. A teria aqui mesmo, eu a jogaria encima da mesa, rasgaria sua calça de Lycra, e faria todos aplaudirem enquanto assistissem o coito ludibriante daquela bunda subjugada a minha vontade e minha libido incontrolável. Ou não tão incontrolável assim, afinal estaria eu aqui de conversa mole? Bem, não tão mole assim. 6 horas. Ainda pego essa bunda.
Terceiro dia, dessa vez é sério, a bunda realmente cresceu do dia para noite. Posso jurar que ela tem pelo menos 20 centímetros a mais de quadril do que ontem. Com ela cresce minha obsessão. Eu preciso ter essa bunda. Talvez se trombar com ela na porta do banheiro possa empurra-la de volta pra cabine a força, lambuzando-a como ela merece.
Teria ela com as pernas de salto fino para o ar, subindo e descendo no meu colo enquanto minhas mãos agarram e levantam cada nádega com vontade. Ok, vou no banheiro sem ela. 6 horas. Estou mais aliviado.
Quarto dia, devo realmente estar enlouquecendo. Juro por Deus, a bunda cresceu. Está enorme, não sei como ela consegue andar sem cair pra trás. A bunda é um convite que me devora. Quase a vejo falar. Venha, venha, veeenha. Estamos no elevador, só eu e ela, não creio que haja espaço pra mais ninguém. A bunda não deixaria. Ela pede licença para apertar o botão de seu andar. Sem querer, sua bunda roça levemente no meu pau. Perco a respiração. Será que ela percebeu. É claro que percebeu, aposto que fez de propósito. Está tentando me provocar. Passo o resto do dia a lembrar o toque daquela bunda. Ahhh a bunda. 6 horas.
Quinto dia, juro, ela não tem mais costas, já quase não tem corpo. Mais um dia e essa bunda vai ter crescido tanto que tomará todo o escritório. Agora sobra apenas a bunda e uma face quase imperceptível. Tenho certeza que ela me provoca. Vem com frequência à minha mesa entregar papéis e relatórios que deviam ir para outros departamentos. Passeia pelos corredores insinuantemente, atraindo olhos como imãs. impossível não notar. Já não sei o que é trabalho, há dias que nem ligo o computador. Já não finjo trabalhar, apenas invento desculpas para ver, e quem sabe tocar, aquela bunda. Ela foi pra máquina de Xerox, é minha deixa. Aproximo-me como quem não quer nada. Deixo ela ir primeiro, afinal a Xerox pouco me interessa. Uma de suas folhas cai e ela, inocentemente, abaixa para pegar. E de repente é isso, o mundo a minha volta sucumbe, já não existe mais nada, não existe sala, redação, edifício, planeta. Apenas eu orbitando em volta de uma enorme bunda que cresce e me extasia. Ela continua crescendo e crescendo, já não há mais espaço, eu tocarei essa bunda não só com minha mão mas com meu corpo inteiro, ela vai crescer e crescer até me engulir, ela vai crescer até enguliar tudo que existe, e crescendo e crescendo até explodiiiiir Aaaaahhhhh.
Sim, explodiu. Explodiu meu devaneio num estorpor de um orgasmo que não tive como segurar. E quando vi estava eu, gritando no meio do escritório, agora todo melado com uma bunda em minhas mãos e toda a redação a assistir a cena. Não foi assim que imaginei. Mas como você pode imaginar não houve mais bunda ou redação. É triste uma carreira jornalística ver seu fim assim. Por causa de uma bunda. Mas sabe do que mais, não me arrependo nem por um segundo.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
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Só faltava a poesia do Drummond no fim pra completar. ;)
ResponderExcluirAdorei o conto. Augustinho está bem mais saidinho em seus textos, depois do intensivão Europeu.
Isso é ótemo. Congrats, dear.
Bjos.