terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os Clowns daqui choram como os de lá

Estranho transeunte entra no ônibus. Ele porta uma sacola. O que terá lá dentro? Balas. Ele traz balas. Veste uma camisa xadrez e uma calça social, usa óculos e cabelinho arrumado. Junto com tudo porta uma aparência cheia de trejeitos inseguros dignos de pena.

Distribui as balas entre os passageiros fazendo uso de um português impecável. Seus modos respeitam a boa educação ditada pelos manuais de etiqueta inglesa. Bom dia. Queira segurar, por favor. Um minuto de sua atenção. Segure aqui por favor. A mão meio tremula e vacilante entrega três pacotes de jujubas de menta.

Ao entregar tudo começa seu discurso. Algo como Queriam me dar licença e Desculpem atrapalhar a viagem de vocês. Mas todos temos, e devemos, honrar nossos compromissos. E como Cidadão responsável e desempregado que sou, estou aqui humildemente trabalhando.

Ainda completa depois de algumas tabelas de preço decoradas, para aqueles que se compadecerem posteriormente, um website por onde possam fazer seus donativos. E saiu recolhendo as moedas daqueles que se tornaram persuadidos por seu nobre discurso.

Por um breve momento tive empatia pela figura. Percebi a dificuldade que alguém de provável classe média, que se via agora na rua da amargura, a se expor, comprometendo a sua própria dignidade, algo muito caro e importante para alguém que não tem que lutar pra sobreviver. Foi quando me dei conta de sua força, da força do personagem. E por um momento duvidei, achando que talvez tudo não passasse de um ato muito bem encenado, um artifício muito sagaz, de uma mente tão inteligente e criativa que merece respeito.

E pensando muito sobre isso e observando a figura a minha frente percebi mais uma vez: é totalmente encenado, mas não é consciente. Houvera talvez um tempo em que a dignidade lutou contra a realidade e ocasionou tamanha insegurança a ponto de criar uma persona. Com o passar do tempo, e difícil estimar quanto e quando aconteceu de fato, sua insegurança se travestiu numa máscara muito conveniente para a situação e a partir dali não era mais um cara inseguro a pedir misericórdia e sim um clown que inspirava o sentimento misto de compaixão e pena, também não sendo muito possível distinguir um limiar claro. Uma vez transformado seu inconsciente no artista sagaz, que usava de palco aquele ônibus, e que deixava de existir assim que descesse porta afora dizendo sua enunciação final, ele conseguia um ganha-pão.

E eu ali no ponto como arlequim vencido tentava entender toda a cena, fazendo pensar, existirá mesmo um palco social?

Pierrots uni-vos.

Um comentário:

  1. Oi Augusto, tudo bem?
    Como sempre o seu espaço aqui está T-U-D-O-D-E-B-O-M!!! (rssss) Parabéns!
    Tem post novo lá no VENTURAS... , depois vai lá e dê uma olhada.
    Bjo

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