Já falamos sobre como é ter um dia daqueles. Mas você já teve um dia de perfeita felicidade, onde tudo parece dar certo sem motivo aparente. Minto, talvez sempre exista um motivo aparente para a felicidade. Já a recíproca não é verdadeira.
O meu motivo de felicidade, e isso pode parecer estranho, foi o fato de pedir demissão. Sim, se você nunca se demitiu não pode entender a sensação. A leveza e a alegria espontâneas de tirar um peso das costas, de se livrar daquele trabalho que nas últimas semanas se estagnou, perdeu o sentido, virou rotina. Aquele que já não traz aprendizado nenhum ou ganho, só estresse e dor de cabeça. E nesse momento, meu amigo, você tem dois caminhos a seguir, mudar ou acomodar-se. A segunda fará com que você se torne amargo, dia após dia, e comece a reparar apenas nos defeitos de seus colegas e da empresa, se tornará resistente a mudanças, você morrerá um pouco. Pessoalmente prefiro a primeira opção.
Assim sendo, pedi as contas, expliquei meus motivos e minha saída ficou programada para o final do mês. É desnecessário dizer que o resto do dia transcorreu placidamente. Um momento sublime de felicidade pura e presente, sem questionamentos. Um momento.
Por fim o dia acabara e um questionamento surgiu sim em minha mente. Sentia-me plenamente feliz por um dia inteiro e não queria escrever a respeito. Por quê?
Por quê escreve-se tão pouco sobre os sentimentos alegres? Por quê a tristeza e a melancolia imperam na literatura? São mais poéticas? E você questionará, mas os poetas falam de amor. Sim, eles falam, sem jamais deixar de comentar que também o amor traz sofrimento. Assim pouco se escreve sobre sentimentos de plena felicidade, e por quê?
Para isso, desenvolvi duas hipóteses:
Hipótese 1 – As pessoas valorizam, sadicamente, tudo que traz dor e sofrimento. Isso é fato. O quadro de um artista pode valer o dobro do preço se o mesmo artista estiver morto. “Ele jamais pintará de novo” “E por que você não apreciou a arte dele enquanto estava vivo” “Não sei! Pra dizer a verdade, nunca tinha ouvido a respeito dele. Morreu de quê?” “De fome!”
Sim, quando se trata de morte e desgraça a notícia se espalha, as pessoas agem como urubu em carniça. O ser humano não valoriza o bem precioso que tem e só se dá conta quando lhe é tirado. Mas assim, acaba vangloriando mais o final da jornada do que ela em si. O ser Humano é sádico, e sempre o será.
Hipótese 2 – Os momentos de felicidade são plenos e perfeitos em si mesmos, eles se bastam. Não carecem de definição. Já dizia Jack Trout “Definir é morrer”, e é verdade; ao definirmos algo, qualquer coisa, o limitamos a nossa errônea percepção, o diminuímos, o matamos um pouco em seu esplendor natural. Exemplo: O sol. O sol é. O sol é e apenas é. Nada mais. Diga quente, diga belo, diga saudoso num dia de chuva, diga alegre, diga, e já estará o diminuindo em sua essência. A essência é. Assim aqueles que puderam experenciar um dia pleno, ou até um único momento, não o defina. Não de imediato, não enquanto ele perdura. Ele é pleno e não carece de definição. E quando este tiver acabado, aí sim, defina-o para que reste dele a lembrança que se deteriorará e que a definição ajudará a conservar. Por isso escrevo isso hoje, por isso ontem não tive vontade de escrever. E esse é o conselho que lhe dou: se por acaso você foi agraciado com um raro momento de felicidade, não pense, não defina, não classifique. Curta. Viva. Aproveite.
Augusto M. Anjos
24/08/06 11:35 am
quarta-feira, 6 de setembro de 2006
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Felicidade é um sentimento leve e simples demais para ser descrito.
ResponderExcluirMas vc me fez pensar em algo que não havia pensado antes.
Não apenas não se escreve sobre felicidade, como quando se chega ao "Viveram felizes para sempre", o conto acaba.Será que é isso, então? Que felicidade significa o fim? O fim de uma história, o fim de um emprego, o fim de uma batalha, e aos suicidas, o fim de uma dor que é viver.
Acho as vezes, felicidade pode não ter graça! Daí minha fascinação pelo indígno.