quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O vizinho

Mudara recentemente para Finekau número 5. Um modesto prédio de apartamento genimando com uma igreja católica.
Era jovem, iria estudar na universidade próxima e sentia que seria um bom período, fora de casa.
O que não esperava era ter como vizinho alguém tão inconvenientemente chato, como Deus.
Tudo começou com uma visita do padre:
- Olá.
- Olá. em que posso ajudá-lo?
- Bem como deve ter percebido eu sou o padre da paróquia aqui ao lado e gostaria de lhe dar as boas vidas em nome do Senhor.
- Ora, obrigado.
- Não agradeça a mim, agradeça a ele, sou apenas um inquilino na casa dele. E aliás você também o é, pois esse humilde conjunto habitacional é propriedade da Santa Madre Igreja.
- Hum. Ok então. Posso ajudar em mais alguma coisa?
- Prometa pra mim que vai orar agradecendo a ele diretamente.
- Como quiser, padre. Mais alguma coisa?
- Não, é só meu filho. Tenha um bom dia.
- Bom dia pra você também, padre.
E antes que fechasse a porta.
- E seja um bom cristão, viu. O inquilino ao lado está de olho.
Depois dessa estranha e esquizofrênica conversa ele achara que não seria mais incomodado. Doce ilusão:
- Oi, padre.
- Olá, meu filho.
- O que o traz aqui novamente?
- Meu filho, veja bem, por mais que eu aprecie o bom som do heavy metal, essa não é uma música adequada, o Senhor ficará descontente, isso não é uma música sadia para um jovem cristão como você e além do mais a música alta pode atrapalhar a prece dos paroquianos.
- Hum. Ok, padre, irei abaixar o volume.
- Seria mais adequado se você simplesmente desligasse o som. Ele apreciaria muito. E cá entre nós, (falou o padre entre cochichos) ele não gosta muito de ser contrariado se é que me entende.
- Huuum. Entendo perfeitamente, padre. (falando entre dentes)
- Obrigado meu filho, Deus te abençoe. Tchau.
A porta se fecha. Aquilo estava começando a ficar perturbador. Mas como se não bastasse a coisa não parou por aí. Era domingo de manhã. Aproximadamente 11 horas, quando a campainha tocou, ainda meio enjooado da noite passada ele abrira a porta:
- Ai meu deus, é o senhor de novo, padre. O que foi dessa vez?
- Veja como fala menino. Venho em nome Dele. Ele gostaria de saber onde o senhor estava hoje de manhã.
- Até o presente momento estava dormindo. por quê?
- Era de se esperar que um jovenzinho como você fizesse uma visita ao Propretário ao lado pelo menos uma vez por semana. Preferencialmente aos domingos de manhã, quando estamos abertos para visitas e quando gentilmente lemos as palavras que vieram Dele.
- Ora padre, faça me o favor...
- Misericórdia, meu filho. Não é a toa que não veio a missa. Com um bafo desses deve ter bebido a um bar inteiro a noite passada e está agora sentindo as chagas do pecado boêmio. Espero que reconsidere suas atitudes perante Ele e venha nos visitar semana que vêm. Sóbrio.
- Passar bem, padre.
- Meu filho, só pra lembrar, a bebida é coisa do vizinho de baixo.
- Adeus padre.
- E só a Ele meu filho, só a Ele.
A situação estava se tornando insuportável. Sem dúvida nenhuma Deus era o pior vizinho que ele já tinha tido. Mas o fim ainda está por vir:
- Ora que surpresa vê-lo por aqui, meu filho.
- Esse é o corredor do meu prédio e essa é a porta do meu apartamento. Não vejo como pode ser uma surpresa me encontrar aqui.
- É sempre uma satisfação, meu filho.
- Pelo menos alguém está satisfeito.
- Hum. E certamente não é nosso Propretário. Ele tem estado bastante preocupado com seu comportamento, rapaizinho. Precisamos conversar seriamente. Posso entrar.
- Não, na verdade não pode. Como pode ver estarei ocupado nos próximos minutos.
Disse ele insinuando a garota que segurava sua mão. O padre olhou pra ela de cima a baixo, notando sua saia curta e sua blusa decotada. E então disse o padre olhando pra ela:
- Ora, certamente nosso rapaz aqui esqueceu sua educação cristã e não fez questão de nos apresentar. Como vai minha filha?
- Vou bem.
- Não pude deixar de notar sua indumentária. Como ganha a vida minha jovem?
- Chega padre, já basta. Volte pra sua Igreja. Seu Propretário o aguarda.
- Cuidado com quem andas, meu jovem. O Pecado pagamos na outra vida, mas há mazelas que contraímos nessa, se é que me entende.
- Sei me proteger padre, obrigado.
- Esses artifícios sintéticos criados pelo homem não são bem vistos por Ele. Espero que compreenda em que isso acarreta.
- Com todo respeito, padre, vai pro inferno.
- Luxúria, levianez, blasfêmia, parece que você está com o passaporte pronto meu filho.
- Vá antes, o diabo que te carregue.
- Basta meu filho, vou pedir a ele sua excomunhão. Ele não merece sua visita na casa lá de cima. E espero que o senhor se arranje pois tem 5 dias pra sair.
Expulso e excomungado. O que não tem remédio, remediado está. Ele se mudaria em breve pra outro apartamento próximo. Quem sabe terá tido mais sorte na casa nova com a vizinhança.

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