segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Série Casa de Famíla - Prana

Prana

Se você algum dia tivesse a oportunidade de visitar a família Prana, perceberia que esta não é uma família como outra qualquer. A família Prana se mantém sempre em um estado de espírito elevado de consciência humana, buscando a iluminação de suas mentes por práticas distintas como a yoga, o vegetarianismo e os esportes aquáticos.

Se você por curiosidade pudesse visitar a família Prana perceberia que um melhor vocábulo aplicado a esse léxico seria clã Prana. Isso porque o clã Prana constitui na verdade três famílias em uma, através de um convívio intimo de anos e gerações: respectivamente os Prana, propriamente dito, os Pacholí, e os Kundalini. E é claro o Sr. Pereira. O senhor Pereira é um gay radio jornalista, corintiano roxo e bom futebolista, que convive com os Prana desde a infância, mais precisamente com Daniel Prana, o filho mais velho, quando moravam no mesmo condomínio. Os Pacholí são amigos de faculdade dos pais de Daniel e Isabela Prana, e seus filhos Danilo e Gabriel Pacholí cresceram juntos, brincaram juntos e juntos foram expulsos da catequese. Os Kundalini são os primos dos Pacholí, Juliana e Edgar. Mas para que essa história não fique mais confusa do que já está vamos nos concentrar nos Prana, propriamente dito.

Ernesto Prana é o pai, dedicado empresário e pai convicto, é o co-protagonista da história que vou contar. Ernesto é casado com Marina Silva Prana, fisioterapeuta. Eles se conheceram no Campus da Universidade de São Paulo. Ernesto andava de bicicleta depois da aula de história e deu carona na garupa para a caloura que estava perdida em frente à praça do relógio. Ali começou o namoro que se estenderia pelos anos de faculdade, culminando num casamento e numa família com mais dois integrantes, Isabela e Daniel. Isabela nasceu com um lápis na mão e logo que saiu fez questão de desenhar o próprio parto. Ela e o desenho são inseparáveis. Quando criança pintava todas as paredes da casa com giz de cera. Hoje é uma designer famosa e toca em paralelo uma vida de artista plástica. Daniel é publicitário e professor de yoga. Daniel não come carne, diz que isso atrapalha os exercícios de yoga para atingir o Samadhi, e a história que vou contar é de como esse vegetarianismo começou.

Sabe, o vegetarianismo é um processo: primeiro se corta da dieta a carne vermelha, depois de alguns anos o frango e depois o peixe. Nossa história se passa no último estágio desse processo, quando Daniel iria parar de comer peixe e o grande acontecimento que o levaria a isso.

Daniel e seu pai Ernesto tinham uma ligação muito forte, quase mística. Foi pela influência do pai vegetariano que Daniel parou de comer carne. Daniel partiria para uma viagem de intercâmbio e passaria 6 meses na Nova Zelândia, bem longe de usa família. Mas ainda há quilômetros de distância a ligação deles continuava e Ernesto conseguia saber quando algo de muito importante ou inusitado acontecia com seu filho.

Pois bem, era uma tarde de domingo e Daniel ia sair com o pessoal do albergue para fazer uma viagem turística numa grande montanha nevada. Tinham almoçado numa lanchonete e Daniel teve que se contentar com um peixe grelhado ao molho de curry verde e barbecue, a única opção do cardápio que estava dentro da sua dieta. Tinham começado a longa caminhada para conhecer uma geleira que nunca derretia, quando de repente uma dor de barriga fulminante acometeu Daniel. Seu estomago roncava como que com fome só que de um jeito diferente. Roncava como nunca tinha ouvido antes e sentia não aquele vazio doloroso da fome, senão um estrondo grave como um tambor de guerra. Daniel disse ao instrutor: “Acho que preciso ir ao banheiro”. E o instrutor o responde: “Não tem como. O banheiro mais próximo fica a 10 km daqui. Você vai ter que segurar”. Aquilo era preocupante. Daniel não se agüentava dentro de si e começava a andar mais lento, mais apertado, mais rebolado, quase numa marcha atlética. Enquanto isso, do outro lado do mundo seu pai se revirava no sono, suando frio, sonhando com algo muito incomodo. Daniel estava em estado crítico, já tinha ficado por último na fila para que na primeira oportunidade pudesse devolver a natureza aquele maldito peixe com curry. Chegaram à geleira e Daniel não conseguia nem mais ouvir o discurso ‘National Geografic’ do instrutor sobre a sagrada, milenar e inviolável geleira, intocada pelo homem, pura e branca. Daniel tinha medo de peidar sem que isso fosse acabar num catastrófico desastre. Mais uma vez seu pai, do outro lado do mundo, começa a se revirar na cama. Daniel não podia mais suportar. Esperou seu grupo se afastar. Olhou em volta. Não vendo ninguém arria as calças e começa. O momento tão esperado finalmente tinha chego, não dava mais pra se conter, era tão aliviante que Daniel não podia conter sua felicidade “AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH”. Quase chorou de tão feliz que estava. “Mas e agora? Como vou limpar?” Daniel põe a mão na testa tentando achar uma solução. E lá estava ela bem na sua testa. A mão com luvas. Luvas aveludadas, macias e (depois disso) descartáveis.

Do outro lado do mundo Ernesto acorda desesperado. “Marina acorda!! Marina acorda!” “Que foi, Ernesto?” “Eu preciso comer bacalhau.” “O QUÊ?”

“Eu preciso comer bacalhau agora.” “São três horas da manhã Ernesto! Onde é que você vai encontrar bacalhau?” “No posto 56”.

Daniel, de calças arriadas, numa das cenas mais inesquecíveis da sua vida, limpando a bunda com a luva aveludada vê um flash e imagina o pior. Sim, o pior tinha acontecido: Um grupo de japoneses alucinados tiravam fotos sem parar do turista que do outro lado da geleira tinha cagado na paisagem de 5 milhões de anos, intocada pelo homem até então, e que ainda de calças arriadas limpava a bunda com a própria luva.

Sem jeito, e sem muito o que fazer naquela situação, Daniel sorri e acena com a outra mão para as câmeras como se fizesse pose, jurando que nunca mais na vida comeria peixe, enquanto que do outro lado do oceano seu pai andava 56 quilômetros de carro só pra matar a saudades de comer bacalhau.

É o universo é sábio: o que tira de um dá ao outro.

Augusto M. dos Anjos

29/09/08

Um comentário:

  1. Grande Augusto!
    Vi que continua abusando desse seu talento como escritor!
    Um forte abraço
    Cicconi

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