(A meu valoroso amigo Pedro)
No alto de um morro no Pacaembu foi construída a Mansão Andrade Morais. Seu proprietário e idealizador, o Barão Vicente de Andrade Morais, dono de muitas terras, de metade de toda a rede hoteleira das praias de Intanhaém e prefeito da singela cidade praiana. Construiu a casa num dos ponto mais altos da cidade, tão alto que da varanda do seu quarto pretendia ver o mar da saudosa baixada. Infelizmente com o passar do tempo a pomposa Av. Paulista deixou de ter suas gloriosas mansões e passou a ter arranha-céus que tapam a vista de qualquer mortal.
O Barão de Morais, honrado homem que era, desposou Emily Chantèle Traviata, uma nobre franco-italiana, cujo pai era dono de uma pequena ilha no sudoeste italiano, conhecida carinhosamente pelo nome de Sicília. Emily era a perfeita combinação das duas culturas, de personalidade forte mas doce, ela tinha a elegância francesa e a alegria italiana.
Barão e Baronesa Morais tiveram um único filho, a quem devotavam todo seu amor, Caio Felipe de Andrade Morais. A Família Andrade Morais foi sempre criada através dos bons costumes e dos mais altos preceitos morais. Com Caio não seria diferente, católicos fervorosos que eram, fizeram da vida de Caio uma predileção a inúmeros rituais: batismo, catecismo, 1ª comunhão, eucaristia, recitação do lecionário, crisma, domingo de ramos e auto de natal. Foi coroinha, diácono, sacristão, aspirante a seminarista. Mas Caio também foi arteiro e fez das suas quando criança. Com estilingue no bolso direito e terço no bolso esquerdo, ele comandava os atentados de maria-fedida na casa de dona Lurdes e amarrava traque em rabo de gato. Uma vez fingiu dor de barriga pro padre da escola, afim de matar a aula de matemática e ser dispensado da prova; o Sr. e a Sra. Morais chamados e Caio agüentou bem a sua farsa até quase perder o apêndice, minutos antes do doutor deitar o bisturi em sua barriga. Era tarde, até hoje Caio tem uma cicatriz de 1 ponto cirúrgico, que foi o que o medico cortou no susto da revelação de sua traquinagem infantil.
O tempo passou e caio cresceu. Foi para a faculdade de direito, bebeu muita cerveja num bar em frente a estátua do beijo, no largo São Francisco. Estagiou no gabinete de um famoso juiz da junta militar que participou da constituinte de 67. Pendurou a conta em muito restaurante ali do centro e aproveitou pra curtir a vida com muita estudante do 1º ano. Mas foi no carnaval de 72, em Salvador, que Caio conheceu Luana, a quem na comunidade soteropolitana chamavam carinhosamente de Lua. Lua era também advogada, formada pela Universidade Federal da Bahia, de família influente na elite intelectual da cidade do Senhor do Bomfim, seu pai era editor-chefe do A Tarde e eles moravam no ostentoso bairro Caminho das árvores, na cidade alta.
Foram duas semanas de lua cheia no céu da capital da alegria, em que Caio deixou as morais de lado e viveu uma ardente aventura com Lua . Na metade da quaresma do outro ano Lua viria se tornar Luana Morais. Os dois viriam residir em São Paulo, na mansão Andrade Morais, constituindo a segunda geração da família em terras bandeirantes.
Lua e Caio tiveram 3 filhos, Felipe de Andrade Morais, Caio Felipe de Andrade Morais Júnior, ou simplesmente Juninho, e Eduardo Felipe de Andrade Morais. Felipe, o mais velho, era o desbravador de morais, sempre revolucionário, pouco previsível e bastante impulsivo. Felipe aprendeu de cedo que com alguma insistência, conseguiria o que quisesse de sua mãe; ela acabaria por sua vez a convencer o pai e o mirabolante projeto seria implementado. Entre os grandes feitos que a mansão presenciou estão: o campeonato inter-colegial de futebol em sala de estar, o half de manobras super radicais no porão, a rave de 32h e 400 convidados, e por último mas não menos importante, a petição nº 1345 de jurisdição residencial, que permitia a legalização de alguns psicotrópicos naturais e de baixo teor na jurisprudência da Mansão Andrade Morais, entre eles o chimarrão. Isso porque Felipe tinha se acostumado a erva gaúcha quando, em sua viagem ao sul, foi surfar na praia do rosa, onde conheceu Bianca, bela garota porto alegrense acostumada ao chá de erva mate.
Quase tudo era permitido dentro dos muros da mansão Andrade Morais, desde que se levasse em conta os tradicionais costumes católicos não praticantes. A tradição era tão levada a sério que na parede da escada principal da casa estava uma foto autografada do Papa João Paulo II, de quando em sua visita ao Brasil vovó Emily o saudou em Aparecida. Em verdade vovó Emily não era mais a mesma desde a morte do Barão. Já com idade avançada, adquiriu uma senilidade quase poliana, estava sempre rindo e caminhando pela casa como se dançasse; vestia-se com suas peles e se maquiava de manhã para tomar o chá das cinco; vivia num mundo quase a parte, mantendo breves colóquios sobre as refeições ou quando seria novamente a hora de comer; cumprimentava a todos os visitantes à moda francesa e como manda a hospitalidade da casa, sempre se despedia deles com um “já vai?” “mas volta logo viu!” com o dedo em riste.
A casa realmente tinha uma aura muito hospitaleira, talvez por influência de costumes baianos, talvez italianos, mas o fato é que a porta estava sempre aberta para quem quisesse entrar, a cuia de chimarrão sempre cheia e, a TV da sala sempre ligada, para o caso de alguém chegar não encontrar ninguém ficar à vontade; de maneira que não importava a hora do dia, da noite ou da madrugada, sempre havia visitantes na casa. Pra quem passa na rua não é essa a impressão da mansão, já que no jardim da frente, mantendo guarda, estão dois enormes pitbulls que com uma única mordida poderiam lhe arrancar o braço. Mas sendo as primeiras impressões muito primeiras e sempre muito pouco confiáveis, não seriam esses dois ferozes animais em aparência a desmistificar a hospitalidade Andrade Morais. Se tivesse você oportunidade de ultrapassar os suntuosos portões da Mansão e desse de cara com os dois cães, eles provavelmente lhe cheirariam as costas da mão e, logo em seguida, enquanto o macho esfregaria a cabeça em sua perna pedindo carinho, a fêmea deitaria de barriga pra cima pedindo cócegas.
Foi num belo dia de domingo que Juninho viria a proferir a frase que entraria pros anais da família Andrade Morais, mudando todo o curso da (H)istória. Era pouco depois da hora do almoço, quando a fadiga toma conta de todos, leve, lenta e esperada, impedindo que se levantassem sem um dispendioso e desnecessário ato. A família terminava a sobremesa, quando Juninho, olhando para o pudim que mal havia tocado, disse “Mãe, eu sou ateu!”
Todos os talheres caíram ao mesmo tempo das mãos frouxas de perplexidade, cintilando em uníssono e dando ao momento um quê ainda mais melodramático. “Como você tem a coragem de desgraçar a sua família dessa maneira, meu filho” “MÃE, é só uma religião. O cara não morreu na cruz, ele nem existiu” “Você não ouse falar nesse tom comigo, mocinho” “Ou o quê? Deus vai me castigar?” “Agora já chega, pro seu quarto!”, e ainda com o dedo em riste, enquanto Juninho subia as escadas Lua ordena em sussurro “Caio, ligue pro padre Julio, temos que resolver essa situação” “Pra já, isso não vai acontecer na minha família”.
Em menos de 20 minutos estava padre Julio à porta do quarto de Juninho com defumador e água benta em mãos, seu ajudante levava uma enorme cruz de madeira e um livro de capa preta e páginas vermelhas. O padre tentou primeiro a diplomacia, “Juninho, por Deus nos deixe entrar” “Nem fodendo! Nem por ele, nem por você, nem por ninguém” “ Não fale assim garoto, ele está de ouvindo” “Sim, e nesse momento está em conferencia com Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada do Dente para decidir o meu destino” “Não blasfeme garoto ou eu...” “Você o quê? Vai se bolinar com seu coroinha, seu pedófilo viado”
Não ouviu mais palavra, padre Julio botou a porta abaixo a ponta-pé e entrou com violência. Começa o ritual: Juninho amarrado na cama falava um palavrão a cada respingo de água benta que atingia sua testa de tempos em tempos, ou entre um canto gregoriano e outra recitação em latim. “In Nomini Cristi, Rex rexorum, Domini Dominorum, Figli di Deo, abbandonate questo corpo che non appartiene a voi, creatura di inferno” “seu filho da puta” “Uova di Lúcifer, esca regno di Lux” “Corno, viado” “♪Cursum perficio. Verbum sapienti: Quo plus habent, Eo plus cupiunt. Post nubila, Phoebus Iternum ♪” “Me tira daqui seu desgraçado”.
O coroinha passava pelo quarto com o defumador exalando arruda e sândalo e a família assistia a tudo atónita. Até que aconteceu. De repente, como se houvessem desligado um botão, Caio desfaleceu vindo ao chão num supetão e num grande estrondo que deixou a todos em completo silêncio imóvel. Tudo parou, a cantoria, a chingadeira, e até a fumaça, tudo corroborando para a dramaticidade do momento. O próximo barulho a quebrar o ensurdecedor silêncio da casa seria o tilintar contínuo das sirenes de ambulância.
Diagnóstico: Acidente Vascular Cerebral por isquémia, vulgo derrame. Sequelas: perda de algumas funções motoras para nós tão familiares e corriqueiras, como comer, escrever, dirigir, trabalhar, por vezes falar. Caio ficou em observação por 1 semana e depois voltou a casa, desanimado, desorientado, desamparado de si mesmo, desesperançoso quanto ao resto de seus dias e a um diagnóstico que o impedia de fazer quase tudo. É em momentos como esse que se entende a essência do que significa o vocábulo família. Seres que convivem tanto tempo juntos, brigam, discutem, se amam, se odeiam, mas se apoiam, se sacrificam em nome uns dos outros. Assim foi, Lua alimentava Caio a cada refeição como a um bebê, até que esse sentisse confiança e firmeza na mão para comer sozinho; Felipe levava o pai de carro para onde ele quisesse; Eduardo ajudava o pai no banho até que também se sentisse confortável para realizar a tarefa sozinho; e Juninho, bem Juninho escrevia. Das quais pode parecer a função menos importante, mas foi justamente essa que devolveu o vigor e a esperança a Caio.
Um dia Juninho se deparou com o pai tentando escrever poesia como costumava fazer há algum tempo nas horas livres. A mão trêmula e sem controle riscava a folha de forma displicente, por vezes derrubando a caneta devido a tamanho esforço físico e mental. “ Pai, deixa que eu escrevo.” Caio olhou por um momento para o filho meio relutante, meio surpreso, como se tivesse sido interrompido de uma tarefa muito importante e de tão concentrado que estava demorou para se relocalizar no espaço-tempo e entender o que o filho o dizia, “O senhor me dita, eu escrevo”, dizia Juninho enquanto pegava da mão do pai o papel, entregue ainda em ar atónito. “Escreva lá...” e Juninho ouviu e escreveu, escreveu e ouviu. Ouviu um poema que seu humilde narrador não teria gabarito para reproduzir com perfeição, um poema que falava de erros, tentativas e acertos, acertos subsequentes de erros tão banais e tão presentes a cada ato. Foi nesse momento que Juninho percebeu a perseverança do pai em transpor aquela dificuldade, nesse preciso momento, Juninho percebeu nas nuances da narração do pai o imperceptível, Juninho teve uma epifania, um momento de iluminação. Juninho conheceu nos poemas do pai, nesse e em muitos outros que viriam, um deus diferente daquele aprendido na catequese, enxergou um deus que era a capacidade humana de superar desafios intransponíveis e ainda que tudo que lhe fora ensinado na fé católica não passasse para ele de um mito, esse se faz verdadeiro através da metáfora da superação da morte e da tortura inumanas pela ressurreição de um ideal.
E a mansão Andrade Morais segue placidamente no alto Pacaembu, apenas aguardando outras inúmeras histórias e outras tantas gerações.
Augusto Moreno dos Anjos
23/11/07
14:11
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